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UM FILME ESTRANHO

*Por Tarsílio Moreira

O filme Paulo, apóstolo de Cristo, que estreou nos cinemas brasileiros em 3 de maio, certamente surpreende em muitos momentos e causa um certo estranhamento para o cristão atual. A crítica especializada não gostou ou não entendeu; a maioria dos cristãos deixou o filme passar despercebido e muitos cristãos saíram com expectativas frustradas. Apesar de não contar todas as surpresas, vou comentar alguns pontos importantes do filme e, se você ainda não viu e não quiser ter qualquer informação sobre seu conteúdo, sugiro que primeiro assista para depois ler esta crítica.


O filme é estranho porque a cultura atual valoriza muito as biografias, chegando até mesmo a idealizar pessoas e cultuá-las. Aqueles que estavam esperando uma biografia do apóstolo neste longa saíram frustrados. O foco do filme é a mensagem do evangelho de Cristo e a cultura da igreja primitiva, tendo Paulo e sua teologia apenas como fio condutor para demonstrar o verdadeiro amor. O protagonista acaba sendo Lucas, autor do evangelho e do livro de Atos. No fim do filme, Lucas revela o porquê de não ter incluído no livro de Atos a morte de Paulo: interessava mostrar o avanço do evangelho da Judeia até Roma, e não contar a biografia de uma pessoa.




O filme é estranho porque estamos em uma época em que a igreja em geral vive de milagres e por milagres, afirmando que estes são essenciais à fé. No filme, a filha de um perseguidor romano fica doente. O cristão atual já pensa que ao final Paulo irá curá-la. Ilusão. Paulo não se coloca como um milagreiro e afirma que o poder sempre foi de Deus, mas indica Lucas, que trata a pessoa como médico. Deus usa o conhecimento de medicina de seu servo para curar. O poder de Deus acaba então se manifestando através do amor de alguém que se dedicou para salvar até mesmo a filha do inimigo.


O filme é estranho porque a tônica das igrejas atuais tem sido a teologia da prosperidade material. Encontramos no filme, de acordo com relatos históricos, uma igreja perseguida, empobrecida, torturada, assassinada.

Vemos também um apóstolo Paulo preso em um porão se recusando a se revoltar e alegando que é na fraqueza que o poder de Deus se manifesta. Todo o seu orgulho está na fraqueza. Ficam ecoando as palavras "minha graça te basta". Ao final não há uma reviravolta, não há qualquer bênção material. O apóstolo é decapitado.


O filme é estranho porque vivemos em um mundo onde cristãos são vingativos, pegam em armas com a desculpa da autoproteção, buscam mostrar poder por meio da força bruta e de retaliações. No filme, os cristãos primitivos não aceitam nada parecido com revolta armada. Não buscam vingança, não buscam justiça para si próprios, não pagam o mal com o mal. Pelo contrário, amam, ajudam, acolhem e falam de Cristo para os inimigos que os perseguem e os queimam em praça pública.


O filme é estranho porque estamos acostumados a ver uma igreja buscando poder político terreno a todo custo para assim, através da força e da caneta, obrigar todos a obedecer a moralidade cristã por lei. No filme, em um momento, alguns cristãos desencantados planejam uma revolta para tomar o poder de Roma, depor o imperador e pelo poder fazer a paz. Esse plano é rejeitado pela maioria, incluindo Paulo, Lucas e os outros líderes. A explicação: "não estamos aqui para governar o mundo, e sim para cuidar dele".


O filme é estranho porque a igreja primitiva tem como principal meta cuidar dos órfãos e viúvas abandonados pelos romanos. A atenção deles é para com os pobres e miseráveis, fornecendo abrigo, família, amor.



O filme é estranho porque tem como tônica o amor e o perdão, mas vivemos na cultura do ódio e da vingança, que atualmente estão impregnados nos próprios cristãos. O ponto da vida de Paulo mais focalizado no filme foi o perdão de Deus aos seus pecados de perseguição à igreja. Alguém que sabe o que é ser perdoado só pode passar a vida pregando o perdão e o amor. Um dos pontos mais marcantes do filme é a citação de 1 Coríntios 13 em um momento em que todos estavam sendo tentados a buscar vingança.


Sim, o filme é muito estranho e surpreende. É estranho porque volta para o evangelho puro. É estranho porque o evangelho é estranho, ele vai contra nossa natureza, nossos desejos primitivos, nossa lógica e nossos ideais. Fico feliz por ter podido assistir a um filme completamente apegado ao texto do Novo Testamento e que recupera o "espírito" da igreja primitiva, que perdemos ao longo do tempo e do qual acabamos nos esquecendo.

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