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SOBRE A PÁSCOA, O MICRO, O CHOCOLATE QUENTE E A MORTE

*Por Samyra Bersi

No decorrer da vida, aprendi a amar a Páscoa. Não, não é pelos ovos de chocolate ou pela glutonaria na bacalhoada, menos ainda pelo deleite de abrir um ovo caseiro da avó e encontrar uma variedade de incríveis bombons no meio.

Para mim, a páscoa é a data mais importante do ano, a lembrança mais preciosa! Um abraço na alma, cheio de gratidão e memória, uma xícara de chocolate quente com essência de avelã num dia frio e chuvoso! Mas não é sobre uma lembrança qualquer, e sim, aquela lembrança que traz esperança.

A Páscoa celebra, para os cristãos, a ressurreição de Cristo, o milagre da cruz, a esperança Eterna, o mistério da sabedoria de Deus revelada através de Cristo.

Regra geral, esse é o sentido macro dessa celebração.

Então, nessa páscoa, resolvi explicar o sentido micro e totalmente parcial e pessoal do que é essa data para mim: adoção, luz, cura, pertencimento, dor, abandono, sangue, encontro, embalo, árvores, preenchimento, enxerto, pôr do sol, tempestade, fogueira no frio, mar no calor. Pronto, fui clara? (pausa dramática) Releia a lista e veja se compreende a ideia, você tem até o início do próximo paragrafo para concluir, vamos lá! (Inclua aqui um tempo extra de reflexão).

Eu já sabia que não faria sentido para você, leitor, mas não pude resistir à oportunidade de aguçar a sua curiosidade. Mas também não escrevi palavras aleatórias, todas elas resumem minha teologia, a história que Deus tem escrito em minha vida. Assim como a Páscoa, essa história começa com a morte: Imagine uma criança de oito anos que perdeu o pai, o símbolo de segurança, o seu provedor. A mãe estava grávida, e por muito tempo eles precisaram sobreviver juntos toda a dor do luto, da falta e seus efeitos na vida prática básica. Logo, ela não sentiu, ou não conseguiu, processar muitos de seus sentimentos.

Passamos então para a fase do sepulcro quando cinco anos depois ela se descobre extremamente magoada com Deus e com a vida. Ela se mutila, se odeia, clama pela morte. Provoca dor em si mesma por não ser familiarizada com nenhum outro tipo de sentimento. Tudo é vazio, tudo é ausência, nada faz sentido, vive-se para morrer, não existe lar, não há segurança, ninguém se importa com ela. É “só mais uma adolescente rebelde clamando por atenção”, “não respeita ninguém”, “não gosta de ficar com as pessoas, deixe ela”, “deveria ser mais amável”. Ela já sofreu tanto que toma seu calmante diário e espera pelo glorioso dia de sua morte.


Em um dia cinza e comum, então, essa criança já crescida é encontrada, conheceu alguém despretensiosamente e, a cada dia, passou a se encontrar para conversar com ele sobre os problemas e as dores. Recebeu consolo e, após vencerem algumas crises juntos, eles finalmente se tornaram amigos. Até que um dia, ele foi direto ao ponto e ofereceu algo a ela, ele disse que desejava adotá-la, e mais do que isso, ela seria filha legítima. Ele cuidaria dela como ninguém nunca cuidou, se importaria com seus sentimentos, nunca deixaria nada faltar, faria uma morada para ela que seria um lar eterno - não aqui -, mas que ela precisaria confiar a ele sua vida. Será que ela aceitou? Parecia um sonho, a resposta de seus desejos mais íntimos, mas ela teria que confiar. Você toparia? A Páscoa para mim é essa adoção, a possibilidade de ter um Pai. O melhor pai que eu poderia ter, que me aceitou com muitas feridas, falhas e dores e me fez aprender a perdoar e confiar, que olhou bem no fundo do meu coração e mesmo com toda a podridão e feiura que há em mim, me abraçou de dentro para fora.

Aquele que entregou seu único filho, para que pelo sangue dele eu pudesse ser enxertada então na sua árvore genealógica.

A Páscoa é sobre um bando de pecadores que, completamente deslocados e perdidos, encontram abrigo e assistem ao pôr do sol, a tempestades, ao vento; que sentem o calor da fogueira no dia frio e se refrescam no mar em dias quentes. E em todas essas situações cotidianas sentem a graça e conseguem contemplar em pequenas doses a grandeza do novo Lar.

Encontramos a ressurreição e a vivemos figurativamente todos os dias em que a graça nos cobre e nos embala, mesmo em meio a aflições. Assim, não mais tomamos calmantes para esperar a morte, mas ao contrário, já encontramos a morte e é exatamente por ela que aguardamos ansiosa e esperançosamente a vida que virá.

Enasfecc

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