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REDENÇÃO

Atualizado: 31 de Jan de 2018

Dizer adeus pode ser fácil. A facilidade nem sempre é bem-vinda.

*Por Simone Teider Bragantin


Paredes cor de pus com tijolos desnivelados, luz ofuscante no teto e cheiro hipnótico de formaldeído faziam daquele quarto um ambiente inóspito aos que buscavam um motivo para agarrarem-se ao último sopro que lhes era permitido viver.

Imóvel, Jeff consegue ouvir a batida do seu coração e dos pingos do soro caindo na cânula presa ao seu braço, tamanho o silêncio ao qual está condenado. Faz música com os instrumentos que lhe foram dados, já que a cama, fria e indiferente, ignora suas investidas para aquecê-lo.


As janelas de vidro o encaram desnudando seu passado e o condenam pela paz ostentada. A escada na qual pisou para subir ali o desdenha por tê-la sujado com a rudeza de suas maldades, quando ainda as carregava no cansaço dos pés.

O relógio marca 10:35. Os segundos não se contêm e zombam do pouco tempo que lhe resta. Pacífico, aceita a provocação calado.


Indiferente ao tempo natural, o que lhe passa internamente agora é algo novo e usa o tempo eterno que possui para contar aos azulejos o motivo do repouso. Não que precisasse ou quisesse reviver o passado, que perdera o seu poder e majestade e se esvaziara de significado, mas sem ele não era possível reconhecer a liberdade do hoje.

Enquanto suas ideias percorrem o quarto, que as recebe com melindre resistente, percebe a fraqueza de toda letra adquirida, a inutilidade de toda posse conquistada e a ilusão dos horizontes nunca alcançados. O nada, esse sim, esteve sempre ao alcance da mão. Viveu com elas esticadas e os olhos fechados, ofegando e destruindo. Roubando vidas em caminhos mortos.


Quando o pouco que tinha lhe fora tirado, viu-se nu e desfigurado, como as vítimas de sua mão carente. Despojou-se um pouco mais. Lavou-se com lágrimas e sangue, baixando as mãos que incessantemente buscavam, abrindo os olhos outrora cegos e serenando a respiração.


Pálido, o quarto parece querer vomitá-lo.


- Quais são suas últimas palavras?


O microfone acima de sua cabeça aguarda ansiosamente uma justificativa.


- Não há mais condenação.



*Simone Teider Bragantin é cocriadora da Culturae Compendium, juntamente com seu marido Thiago Bragantin. Em sua carreira artística já trabalhou em produções cinematográficas diversas e sua paixão pela escrita, que começou pelo roteiro, vem expandindo-se a outros gêneros textuais.


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