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PREGAMOS COM A IMAGINAÇÃO

Por Warren W. Wiersbe* (capítulo do livro The Dynamics of Preaching**)

“A mente humana não é, como os filósofos gostariam que você pensasse, um salão de debates, mas sim um galeria de arte.” W. Macneile Dixon

Um bom sermão deve conter informações úteis e inspiração espiritual, mas se ele precisar ser interessante e ter o poder de transformar vidas, precisará também ser o produto de uma mente criativa. Nós somos feitos à imagem de Deus, e isso significa que possuímos o precioso dom da imaginação. Deus é infinitamente original, mas nós, que falamos sobre ele, conseguimos ser extremamente entediantes. Temos o potencial de ser criativos justamente porque, como a imaginação é a parte criativa da mente, ela enxerga possibilidades e encontra formas de transformá-las em realidade.

Tanto o livro que você está lendo como o computador com qual ele foi escrito começaram a ser criados pela imaginação de alguém.


Obstáculos

Pessoas muito francas ficam nervosas quando escutam a palavra imaginação relacionada à pregação, e há muitas razões para essa inquietação. Talvez elas fiquem desconfortáveis porque associam “imaginação” com “imaginário” ou “ficcional”, e lembram-se do aviso de Paulo de que chegará um dia em que os homens darão ouvidos à fábulas profanas e não à Palavra de Deus (1 Tim. 4.7; 2 Tim.4.4). Porém, há uma imensa diferença entre a “imaginação” e o “imaginário”. A imaginação se aprofunda no mundo real e nos ajuda a entender melhor a realidade, enquanto as fábulas inventam mundos alternativos (como Oz, Terra do Nunca, Terra Média) como uma tentativa ou de escapar da realidade ou ilustrar um aspecto dela.


A segunda razão para essa preocupação pode vir a ser a familiaridade com a estimada versão antiga e tradicional da Bíblia. Por alguma razão, os tradutores “conseguiram” traduzir onze versões diferentes da palavra “imaginação” vindo do grego e do hebraico, e sempre com uma má conotação. Quem poderia esquecer a descrição das pessoas que viviam no tempo de Noé? “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (Gênesis 6.5). Todos os que cresceram lendo essas traduções bíblicas não podem, senão, ver a imaginação como algo sempre perverso, o que, obviamente, não é verdade. Muitas coisas maravilhosas do mundo são frutos da imaginação criativa humana.


Talvez um dos maiores obstáculos para a apreciação da capacidade criativa e imaginativa humana é a incapacidade de muitos cristãos de ver a Bíblia como literatura. “Por que alguém iria querer usar a imaginação para ler e estudar a Bíblia?”, perguntam. “Eles não consideram a Bíblia literal?”. Eles esquecem que, apesar de inspirada por Deus, a Bíblia é uma preciosa peça de literatura, contendo narrativas, poemas, provérbios, parábolas, entre outras diversas formas de literatura. Nós não espiritualizamos partes que são, obviamente, literais; mas também não podemos tratar a poesia contida nos Salmos da mesma forma que tratamos a exposição doutrinária em Romanos 5. Precisamos de uma imaginação santificada se desejamos estudar a Bíblia de forma séria, incluindo nisso suas inúmeras formas de imagens, símbolos e metáforas.


A quarta razão para a atitude negativa em relação à imaginação é a atual ênfase nas pregações analíticas. Para ser franco, muitos pregadores não pregam a Bíblia da forma em que ela foi escrita. Eles analisam e maquinam cada passagem do mesmo jeito e falham em não distinguir o gênero literário do texto que estão lendo. O que a Bíblia diz é da mais alta importância, mas a forma como ela diz também é importante. Os pregadores na Bíblia e aqueles que escreveram as Escrituras usaram imagens metafóricas para levar à uma verdade espiritual, e rejeitar essas imagens utilizadas é um pecado imperdoável de exegese.


Por que a imaginação funciona?

Se você disser, “Meu amigo é como uma leve brisa em um dia quente”, você estaria utilizando uma analogia. As analogias “como” ou “tipo” são usadas para comparar coisas. Mas se você disser ao seu amigo, “Você é uma brisa refrescante em um dia quente”, você estaria fazendo uso de uma metáfora. Jesus usou metáforas quando disse “Eu sou a porta” e “Eu sou a videira verdadeira”. Metáforas têm o poder de unir duas coisas que não combinam e dessa união, produzir algo novo. É isso o que acontece quando uma mãe diz para o filho todo enlameado, “Você é um porco!”. É claro que a criança não é realmente um porco, mas foi assim que a mãe conseguiu transmitir a mensagem.


Metáfora não é algo que fazemos com o idioma, ela é a forma como a linguagem funciona. Na verdade, usamos linguagens metafóricas todos os dias e nem percebemos. A última vez que você disse a alguém, “Eu simplesmente não engulo isso”, você está comparando o que uma pessoa disse (ideia) com comida. Declarações como “Isso para mim, é grego” ou “Eu não consigo visualizar o que você está falando” comparam ideias a objetos que não podem ser materializados. “Você me perdeu no meio da explicação” compara o ato de falar com o ato de guiar alguém a algum lugar. “Houve um desvio nesta discussão” usa o mesmo tipo de metáfora.


A Bíblia foi escrita como literatura e usa diversos meios e instrumentos da literatura para transmitir a mensagem desejada. É essa a forma como a linguagem funciona, e é por isso que usamos da imaginação. Uma boa metáfora capta a atenção do ouvinte e alcança sua mente e coração. Há uma explosão interna (isso é uma metáfora) que produz novas ideias de verdades antigas. O problema é que estamos tão acostumados com a antiga linguagem metafórica das conversas cotidianas, inclusive as bíblicas, que nossa mente passa direto e acaba não recebendo nem a informação e nem o impacto do que foi falado ou lido.


Quando o profeta Isaías quis anunciar a completa derrota e humilhação dos moabitas, ele escreveu: “Pois a mão do Senhor repousará sobre este monte; mas Moabe será pisoteado em seu próprio lugar, como a palha é pisoteada na esterqueira.


Ali Moabe estenderá as mãos, como faz o nadador para nadar, mas o Senhor abaterá o seu orgulho, apesar da habilidade das suas mãos” (Is 25.10,11). Nadar no esterco é uma imagem que você pode ver, sentir e cheirar! Imagine o que aconteceria se eu colocasse o seguinte titulo de sermão no quadro da igreja para que todos vissem: “No próximo domingo – Nadando no esterco”. Mas é por isso que Deus colocou o imaginário na Bíblia, para ganhar nossa atenção, atiçar nosso interesse e nos livrar da nossa letargia intelectual.


Como funciona a imaginação?

Guiada pelo Espírito Santo, sua imaginação pode te servir de cinco formas enquanto você estuda a Bíblia e prepara um sermão.

A primeira, a imaginação reconhece o imaginário na passagem. Nenhum exegeta são consideraria literal todos os elementos descritos em Apocalipse 1.12-16 acerca de Jesus Cristo. Ou ainda, a figura da amada de Salomão descrita no capítulo 4 de Cantares. Ao cultivar uma sensibilidade ao imaginário bíblico, você irá facilmente encontrar nas passagens: analogias, metáforas e objetos simbólicos, personagens, e eventos. (Se quiser fazer um teste consigo mesmo agora, leia Isaías 59 e identifique as imagens).


A segunda forma da imaginação nos ajudar é ao analisar essas imagens e descobrir o que elas significam. Isso é importante porque a mesma imagem pode significar outra coisa em uma passagem diferente. Satanás é comparado a um leão (1 Pedro 5.8) mas Jesus Cristo também (Apocalipse 5.5), e água para beber simboliza o Espírito de Deus (João 7.37-39), enquanto água para lavar simboliza a Palavra de Deus (João 15.3; Efésios 5.25-27). Devemos nos perguntar, “o que Deus está nos dizendo com essa imagem”?


Terceira, a imaginação sintetiza as imagens em uma passagem para que possamos encontrar o “guarda-chuva” que as une. As imagens em um texto não são como contas de um colar, eles são mais parecidas com cores e formatos tecidos em uma peça de tapeçaria. Por exemplo, em Gálatas 5 encontramos inúmeras imagens vívidas, entre elas jugo (v.1), lucro e prejuízo (v.2), correr a corrida (v.7), fermento (v.9), e fruto (vv. 22-23). O tema que junta todas elas é o viver pela graça e não retornar à Lei Mosaica. Ela nos prenderá como um jugo e destruirá nossa liberdade. Irá roubar nossas bênçãos espirituais, nos guiará por estradas erradas na caminhada cristã e, espalhando-se como fermento, afetará a nós e a à igreja.


Enquanto estudamos o texto, a imaginação também nos ajuda a cristalizar a mensagem em uma sucinta idéia e uma determinação de propósito que resumirá o sermão: “Cristo comprou para nós a liberdade quando ele morreu na cruz. Se abandonarmos a graça e voltarmos à praticar a lei, pense nas perdas que acontecerão”. Você não prega as imagens e as transforma em uma alegoria, você prega a verdade revelada em imagens. Na passagem de Gálatas, as imagens dizem que perderemos nossa liberdade em Cristo, as riquezas da graça de Deus, o progresso na vontade de Deus (a corrida que nos foi proposta), e a pureza de vida e da doutrina (o fermento).


Finalmente, a criatividade nos ajuda a organizar o material para que possamos apresentá-lo de uma forma que ative a imaginação e o interesse dos ouvintes. Paulo começa a sua defesa da graça nos levando para uma fazendo (jugo). Depois nos leva ao banco (lucros e prejuízos). Depois disso, vamos a um lugar onde maratonistas correm. Finalmente, somos levamos à padaria, onde vemos o padeiro usar o fermento no pão. Novamente, não pregamos as ilustrações, nós as usamos para declarar as verdades espirituais que elas representam. (Se você quiser outro teste de suas habilidades de reconhecer e organizar imagens, prepare um sermão sobre o Salmo 130).


Cultivando sua imaginação

A palavra cultivando é metafórica e sugere uma sã colheita como resultado de uma plantação de sementes saudáveis, cuidado com o plantio, fertilização do solo, e a sabedoria para escolher o tempo da colheita dos frutos. Todos tem imaginação, e qualquer um pode desenvolvê-la, independente da idade que tenha. Pesquisadores dizem que as crianças passam os primeiros anos de vida envoltos em seu imaginário poderoso, esses poderes são quase destruídos quando eles entram para a escola. Um dos grandes destruidores da imaginação é a televisão, enquanto o rádio e a mídia escrita ajudam ao desenvolvimento da imaginação. Quando perguntada se prefere assistir à televisão ou ouvir histórias nas rádios, uma garotinha respondeu, “Eu prefiro o rádio porque as imagens são mais claras”. Frank Lloyd Wright é acusado de dizer que a televisão é o “mascar chicletes para os olhos”, e essa não é uma metáfora ruim.


Para ajudar a desenvolver nossa imaginação, devemos imitar as pessoas criativas. Pessoas criativas são leitores assíduos, e lêem sobre tudo. É notável a quantidade de criativos que gostam de ler quadrinhos e têm um ótimo senso de humor. Eles também gostam de palavras e, às vezes, gostam de ler o dicionário. Gostam de resolver criptogramas e fazer palavras-cruzadas. Essas pessoas estão sempre alertas e observam pessoas, objetos e eventos ao redor delas. Eles se indagam sobre questões da vida e o que ela os traz, especialmente “Por que?” e “E se?”. Se você os flagrar olhando para o “nada”, pode ter certeza que não é letargia, eles estão pensando e trabalhando. Assim que têm uma idéia, escrevem-na e guardam para consultar posteriormente. A vida para eles é uma aventura de idéias, um constante encontro com imagens.


Algumas pessoas têm a imaginação gelada como o inverno; está congelada, se move lentamente, e precisa ser descongelada. Outros, infelizmente, têm uma imaginação como um esgoto, e é preciso limpar o lugar. Mas aqueles que possuem a imaginação fluindo como um rio experimentam o trabalho criativo do Espírito Santo, e tudo que esse rio toca inspira vida. Não tenha medo de desenvolver sua imaginação e usá-la, porque a Bíblia é uns livro não apenas inspirado por Deus mas cheio de literatura e imaginação.


Preparando a verdade

Sair de uma linha analítica para entrar na homilética é exercitar a imaginação. Nós nos perguntamos, “Como eu posso preparar esse material a fim de que as pessoas se interessem nele e ele possa entregar a mensagem facilmente?”.


Um provérbio oriental diz, “O grande professor é aquele que transforma os ouvidos das pessoas em olhos, para que elas enxerguem a verdade”. Foi exatamente isso que Jesus fez. Ele criou pontes entre assuntos familiares e não familiares, usando o mundo natural para explicar o mundo espiritual. Todo fazendeiro estava familiarizado com sementes, e eles começaram a pensar sobre o assunto. As mulheres da multidão sabiam tudo sobre fermento, mas ainda assim ficaram se perguntando porque Jesus disse que o Reino dos Céus é como uma mulher colocando fermento em uma massa.


O Salmo 130 possui quatro estrofes e cada uma delas pinta uma figura;

1. Uma pessoa chorando por socorro (vv. 1-2)

2. Alguém procurando perdão (vv. 3-4)

3. Uma pessoa esperando pelo amanhecer do dia (vv. 5-6)

4. Uma pessoa (escravo?) com esperança de ser solto (vv. 7-8)


Uma das pessoas está se afogando, provavelmente debaixo das ondas e profundezas do pecado ou tristeza ou desespero. O que é necessário ali é a misericórdia de Deus. A outra pessoa está em um tribunal e todas as evidências mostram: “Culpado”, Deus mantém bons registros. A terceira pessoa está assistindo o inimigo chegar e sitiar a cidade. Ah, se apenas o sol nascesse! A última pessoa é escrava, e pensa se algum dia alguém pagará o preço de sua redenção.


Qual é o tema principal que une as imagens de afogamento, culpa, escuridão e escravidão? É o pecado (vv. 3 e 8). O pecador é ilustrado como uma pessoa se afogando ao mar, um culpado prisioneiro diante do tribunal, um vigia observando pelas paredes e por um escravo em cárcere. A resposta para essas dificuldades é a misericórdia de Deus (v. 1), o perdão (v.4), e a redenção (v.7). O que acontece quando pecadores clamam a Deus por salvação e colocam a sua fé em Jesus Cristo?


1. Eles deixam a morte para a vida (vv. 1-2)

2. Ele deixam de ser culpados e recebem perdão (vv. 3-4)

3. Eles saem da escuridão para a luz (nascer de um novo dia) (vv. 5-6)

4. Eles saem da prisão e passam a ser livres (vv. 7-8)


Um livro de imagens inspirado por Deus

Deus usa imagens e linguagem imagética para nos ensinar sua maravilhosa verdade e somos tolos em não fazer uso dessas imagens ao expor as Escrituras. Ele ilustra a tentação como o pecado que jaz à porta (Genesis 4.7), a concepção do pecado no próprio homem, que dá à luz ao pecado (Tiago 1.13-15). No livro do Apocalipse, a cidade santa é uma noiva pura, mas a Babilônia, um sistema longe de Deus, é a prostituta. Em João 10, Jesus é o bom pastor que se sacrifica, mas Satanás é um ladrão e destruidor. De acordo com o evangelho de João, salvação significa novo nascimento, beber da água viva, comer do pão da vida, ter os olhos abertos para a luz, e seguir ao bom pastor pelos verdes pastos. E esses são apenas algumas das ilustrações cativantes que representam a salvação encontradas na Palavra de Deus.


“O cristão deveria ser aquele cuja imaginação eleva-se acima das estrelas”, escreveu Francis Schaeffer. Ao mesmo tempo, precisamos manter nossos pés firmemente plantados em Cristo e nas boas-novas de Deus. A combinação das duas coisas tornam a pregação efetiva.


*Warren Wendel Wiersbe é um pastor norte-americano, teólogo, conferencista e um grande escritor de literatura cristã e trabalhos teológicos. Nascido em 16 de maio de 1929 em East Chicago, Indiana.

** Título Original: The Dynamics of Preaching

Editora: Baker Books, 1999 - 176 páginas

ISBN 144123148X, 9781441231482

Tradução: Simone Teider Bragantin


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