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POEIRA PASSAGEIRA

Atualizado: 15 de Jun de 2018



O que somos nós neste mundo? O que é o dia alvo de grandes preocupações?

Poeira.

Nossas preocupações são poeira. Nossa insônia é poeira. Nossos medos congelantes que paralisam diante do perigo são poeira.

Nosso dia difícil é poeira.

Nosso ente querido é poeira.

Nossas doenças são poeira.

Aquele que trama o mal contra nós é poeira.

Esta imensa esfera azul perdida em um todo negro com pequenas explosões é poeira. Não diante de nós, diante de nós as poeiras são muros, prisões, cordilheiras, desgaste. São desafios, situações quase que impossíveis de escalar. Somos mergulhados na angústia da impotência, que é como um lago gélido que nos anestesia enquanto nos afogamos. Para onde, pois, olharei em meio aos rostos turvos que em vão tentam me enxergar? De onde arrumarei forças para não deixar uma reles poeira me afogar? Beberei deste cálice? O céu, mesmo quando cinza, ainda é céu. Ele não precisa ser azul. Nada precisa ser azul, exceto quando é. Nem tudo tem um porquê compreensível, existe aquilo que simplesmente é. E também, aquele que é. Ele criou a poeira, ele serviu o cálice, ele é quem escolhe as cores. Ele escalou um morro muito maior do que o Everest, para que diante de mim esse morro fosse poeira. Ele mergulhou nas águas do Polo Norte para que meus medos fossem lagos transponíveis. Ele sofreu toda a angústia possível para que mesmo em minha profunda dor eu pudesse olhar para o céu, mesmo quando ele não é azul. O céu não é poeira, é eterno. Tudo que não é eterno é poeira.


*Samyra Bersi

Enasfecc

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