• Culturae Compendium

PARA SE LER UM CLÁSSICO

RYKEN, Leland*

#lelandryken #aguidetotheclassics #literatura #arte #literature #classics #literaturaclássica #cristianismo #leitura #cristãos #culturaecompendium #grandesautores #cosmovisãocristã #teologia #theology #cultura #christians #Deus #God #Christ #Cristo

As regras para se ler um clássico são basicamente as mesmas para a leitura da literatura em geral. E isso é um assunto tão amplo que poderia virar um livro. Neste capítulo trabalharei apenas o que considero serem as regras mais importantes. Minhas observações são inclinadas para as obras-primas épicas, romances e peças, mas com um pequeno ajuste também se aplicaram a poemas e contos.


Boa prática 1: Leia um clássico respeitando a importância do que você esta fazendo

Ao longo deste livro, eu me fatiguei em escolher a categoria de obra literária que iria considerar um clássico. Os clássicos são os melhores dos melhores. Em algumas áreas da vida, podemos colocar o melhor do nosso comportamento quando participamos de um evento especial ou quando conhecemos alguém importante. O clássico representa a literatura no seu melhor, e nós leitores temos que aspirar nos encontrarmos no mesmo padrão.


Quando sabemos que uma obra literária é um clássico, devemos começar com um voto de confiança. Isso não significa que devemos desconsiderar a nossa avaliação sobre a mesma. Significa que é melhor começarmos conscientes de que o trabalho será árduo, mas será um ótimo trabalho. A grandeza deve ser respeitada e honrada. A elite intelectual atual tem uma tendência de desacreditar os clássicos. Precisamos desconsiderar tais tentativas. Toda obra de literatura é julgada, mas no final do dia, certamente que o clássico nos dará mais verdade, janela e beleza que a baixa literatura (e certamente mais que literatura do movimento de “politicamente correto”).


Boa prática 2: Entendendo a natureza do contexto da leitura

São quatro os elementos que convergem para qualquer contexto de leitura. Isto é: a própria obra (o escrito ou o texto apresentado), o autor, o leitor ou a audiência, e o mundo (incluindo o meio cultural do autor). Em seu famoso livro “O Espelho e a Lâmpada”, o crítico literário M.H. Abrams criou um diagrama que mostra esses elementos e suas relações.


Essa é uma simplificação útil para termos consciência das múltiplas possibilidades de contexto de leitura, de elementos e relacionamentos que a formam. A leitura literária se inicia focada na própria obra (apesar desse fato ser ignorado nas recentes abordagens acadêmicas). Somente a obra em si é a possibilidade de experiência, mesmo que só ganhe vida se o leitor assimilar a obra nas condições de suas crenças e experiências de vida. O autor criou a sua obra em primeiro plano e é guiado por ela, sendo assim não podemos ser negligentes. Porque o objeto da literatura é a experiência humana (junto com o contexto cultural do autor como parte do quadro), podemos relacionar a literatura com a vida. De fato, a experiência humana pessoal e universal é a maior contextualização da obra literária.


Uma boa leitura respeita o caminho pelo qual esses elementos interagem. Esforce-se para manter-se entre eles. Cada um dos três elementos, além da obra em si, pode nos providenciar o contexto em que devemos habitar na obra. Vou explicar mais uma vez (em parte, porque a proposta atual de literatura ignora isso): A vida em si mesma é o contexto dentro do qual podemos assimilar a obra literária. As pessoas que nunca desenvolveram a habilidade de reconhecer a experiência humana universal na literatura são os que não enxergam o sentido da literatura.


Boa prática 3: Aplique o que você sabe sobre literatura em geral

Os leitores podem compreender e apreciar melhor um clássico se aplicarem métodos gerais de leitura e análise literária. Precisamos chegar a um clássico (incluindo a Bíblia) com as expectativas literárias corretas. Isso é um assunto amplo, mas tratarei apenas do básico.


Primeiro, sabemos que o objeto da literatura é a experiência humana universal interpretada o mais concretamente possível. Parte da verdade que a literatura transmite é verdadeiramente a realidade e a experiência humana. A literatura compartilha essa característica com as artes visuais. Se não reconhecermos isso será pouco provável que veremos a experiência humana no texto e terminaremos com a impressão de que literatura consiste em ideias abstratas. Histórias e jornais nos dizem o que aconteceu; literatura nos diz o que acontece. Não é apenas um registro dos tempos do autor; é também um registro da nossa vida e do nosso mundo. O clássico, como um todo, é testemunha da própria experiência humana.


A segunda pressuposição é a importância da forma que a obra chega até nós. A forma literária é importante para os autores, então precisa ser importante para nós também. O autor de Eclesiastes fala por todos os autores quando diz que organizou o seu material “com muita atenção” e também “se esforçou para usar as palavras certas” (12:9-10). Isso também mostra o comprometimento com o gênero com o qual escreveu quando compartilhou os “provérbios” que ouviu, examinou e organizou (v.9). Grandes autores literários atentam-se para o estilo e a forma, e querem que admiremos a obra que criaram para nós.


C. S. Lewis escreveu com bom humor, como de costume, sobre esse tema. Toda obra de literatura, disse Lewis, “pode ser considerada de duas formas: tal qual o poeta disse, e tal qual pensamos que ele disse”. Se os leitores, indevidamente, se concentrarem no conteúdo, “a crítica se torna unilateral”. É quando Lewis dá o seu famoso veredicto: “é fácil esquecer que o homem que escreveu um bom soneto de amor não precisa apenas estar apaixonado por uma mulher, mas também precisa estar apaixonado pelo soneto” (prefácio de Paraíso Perdido).


A terceira pressuposição que devemos ter em mente quando lemos um clássico é a partir de qual perspectiva de interpretação o autor nos apresenta a experiência humana. Essa interpretação pode ser formulada como ideias. Em obras-primas como épicos, romances e peças, a interpretação da vida feita pelo autor expande para a sua cosmovisão. Cosmovisão é um mapa mental e conceitual da realidade. Uma boa metodologia para ler a cosmovisão é atentar-se para as características literárias com compromisso de tentar vivê-las. Baseado no resultado da experiência, podemos formular um parecer sobre a vida. Parte da metodologia é assumir que toda obra é um exemplo que o autor coloca diante de nós. A pergunta que devemos fazer e responder é: Essa obra é um exemplo de quê? Um caso, a história de Caim é um exemplo de sentimentos destrutivos de um mau incontrolado na vida de uma pessoa.


Boa prática 4: Manter-se atento para o óbvio

Não há dúvida de que os clássicos (principalmente as grandes obras-primas) são obras complexas das quais podemos nos aproximar em diversos níveis e por diversos caminhos. As coisas que podemos fazer com elas são inesgotáveis. Os autores desejam que nos deleitemos nos detalhes que eles elaboraram em suas obras.


Existe a possibilidade de um problema, dar atenção excessiva nos detalhes e viajar pelas margens da obra. Os leitores não conseguem manter o interesse na obra se o processo de leitura e análise exceder sua tolerância pelos detalhes. Afinal, os clássicos são obras que lemos principalmente como uma atividade de lazer. C. S. Lewis criticou os humanistas do século XVI pela sua inabilidade “de responder à essência, ao apelo óbvio das grandes obras” (English Literature in the Sixteenth Century). Está é uma fórmula muito útil. Uma das melhores questões que podemos fazer para um clássico é: “Qual é o simples, o apelo óbvio desta obra?”. Respondendo a esta questão temos o principal para uma boa análise da forma e do conteúdo da obra. Em seguida a essa questão, temos outra: o que faz do tema principal um bom material para a história ou poema, e qual é o apelo mais óbvio relacionado com a forma da obra?


Boa prática 5: Esteja ciente de que os clássicos não fogem das influências da queda

Podemos quase defender que os clássicos nos darão formas e técnicas melhores e que os autores usam seus talentos de serem bons observadores do cenário humano, combinando a habilidade de transformar essas observações em palavras. Isso é uma simplificação dos dons que Deus outorgou aos escritores. Porém, não devemos fazer um prejulgamento da cosmovisão do autor e ter uma visão moral ingênua apenas porque eles possuem grandes talentos. Nossa tarefa como leitores cristãos não é mostrar isso, que os clássicos são intelectual e moralmente verdadeiros, mas averiguar se eles realmente o são.


A estrutura de valores e ideias que o clássico encarna são entendidas por nós primeiramente pelo tema principal que o autor nos coloca, combinadas com a perspectiva que a própria obra revela sobre o tema principal. Toda história ou poema são estrategicamente calculados para conseguir compartilhar com o leitor o ponto de vista do autor. Existe um elemento persuasivo obscuro em toda obra de literatura, isto é conhecido pelo nome técnico de retórica da obra. Precisamos analisar esse aspecto persuasivo e codificar os resultados disso, como temas ou ideias sobre a vida.


A visão moral da obra está relacionada com a estrutura de valor e cosmovisão. A moralidade diz respeito as relações humanas com seus semelhantes. É fácil identificar a visão moral na obra literária. Tudo que precisamos é fazer uma lista de virtudes (comportamento que são propostas para nossa aprovação) e vícios (comportamentos que são propostos para nós como mal e que devemos evitar). Tendo codificado a visão moral da obra, juntamente com as ideias e cosmovisão, precisamos avaliar esses tópicos, e elas nos indicaram para a última regra de leitura de um clássico.


Boa prática 6: Ser você mesmo como um leitor cristão

Um dos quatro ingredientes no contexto literário é o leitor. A teoria literária e método crítico que eleva o papel dos leitores é conhecida como reader-response (ou reader-centered). Sua posição dominante na academia já passou, mas existe um movimento herdado desta ideia ao qual os cristãos precisam reivindicar.


A crítica reader-response começou com algo o qual não podia ser provado, a saber, que nossa resposta pessoal é a parte mais importante de qualquer experiência de leitura. Não podemos deixar essas respostas pessoais desaparecerem, então precisamos nos curvar à realidade e conhecê-la. Não há como desencarnar a experiência objetiva da obra literária. A questão seguinte é: o que devemos fazer com nossas respostas pessoais e experiências de leitura?


A coisa errada a se fazer com isso é sobrepô-la ao autor ou à obra. Não temos o direito de fazer a obra dizer o que não diz colocando nas linhas as nossas respostas. Nossas respostas estão nos revelando e pode não nos dizer nada sobre a obra. (Por outro lado, nossas respostas poderá ser o indicador para o que diz na obra). O que podemos dizer, objetivamente, é que determinado grupo de leitores compartilham certa cosmovisão, estrutura de valor e sistema moral. Tal grupo é chamado de comunidade interpretativa, um conceito que evoluiu da crítica reader-response e que vem sendo consagrado.


Cristãos são uma comunidade interpretativa. Naturalmente, eles não são melhores leitores que as outras pessoas. Eles simplesmente são um grupo de leitores que compartilham a visão da autoridade da Bíblia, de onde derivam suas crenças. Com base na Bíblia, os cristãos têm um sistema de doutrina e um código moral comum. Eles também compartilham um conhecimento da Bíblia e, como consequência, é provável que eles, mais do que outros leitores, vejam a presença bíblica na obra literária e acreditem acolher melhor uma dimensão da obra.


Duas coisas fluem da abordagem que os cristãos compartilham em sua comunidade interpretativa. Uma é que os cristãos têm uma agenda comum para julgar um clássico. Eles estão simplesmente interessados na dimensão cristã e bíblica da literatura. Cristãos também perguntam como uma determinada obra concorda com a verdade bíblica e sua moral, e como se desvia delas. Ao mesmo tempo, a paixão de outras comunidades interpretativas pode ser pouco interessante para os cristãos (e vice-versa).


Leitores cristãos, naturalmente, atentam-se para os aspectos cristãos da obra, como os membros de outras comunidades interpretativas se atentam para os aspectos de interesse deles. Aplicado a leitura e interpretação dos clássicos, leitores cristãos devem sentir-se totalmente livres para seguir seus interesses. Quando fazem isso, eles estão simplesmente fazendo o que as outras comunidades interpretativas fazem.


O segundo resultado de ter uma visão compartilhada da autoridade bíblica e a aceitação das doutrinas cristãs é que os leitores cristãos têm uma referência para avaliar verdades ou falsidades na obra, como o que é moral ou imoral. Produzir essas análises não é algo que os cristãos fazem livremente, é algo que eles são obrigados a fazer. Em 2 Coríntios 10:5, Paulo fala de levar todo pensamento cativo a Cristo. Examinando as verdades reivindicadas que encontramos na literatura e se estão em submissão às doutrinas.


O resultado de sermos leitores cristãos é dar-nos ousadia de buscarmos a verdade e permanecermos comprometidos com Cristo quando lemos os clássicos.

Não podemos ser intimidados por grandes autores ou por outros leitores e críticos literários. Temos o direito de sermos uma comunidade interpretativa. Afinal, todos pertencemos a uma comunidade interpretativa. Tudo que é exigido de nós é que sejamos membros responsáveis na nossa comunidade, conhecendo o que a Bíblia, a doutrina cristã e a moral dizem, deixando os autores falaram o que eles realmente falaram e praticando o nosso privilégio de concordar ou não com o que lemos.


Há mais uma coisa a se dizer sobre ser um leitor cristão. Deve estar claro, pelas observações já feitas, que eu acredito que precisamos ser lentos para reivindicar quais obras manifestam uma fidelidade cristã e quais outras não manifestam essa fidelidade.

Precisamos evitar batizar obras como cristãs simplesmente porque gostamos delas.

Contextualização é um pouco mais complexo que isso. No entanto, como leitores cristãos, assimilamos o que lemos no que diz respeito a nossa própria intuição e valores cristãos. Para dizer que há um elemento cristão na obra (ou até mesmo dizer que um autor ou obra é cristão) faz-se necessário comentarmos como podemos entender a obra mantendo a nossa orientação cristã, mesmo quando pensamos que não foi essa a intenção do autor. Por exemplo: em meu pensamento, Shakespeare se torna um escritor cristão (digo “se torna” porque essa é uma opinião que eu construí aos poucos).

Obviamente não posso reivindicar o mesmo de Homero, mas em muitas questões vejo uma coerência cristã na Odisseia, então não posso hesitar em dizer que a reverência de Homero pela casa e família (por exemplo) é um elemento cristão na história. Com isso eu quero dizer que está de acordo com a minha estrutura de valor cristão.


Resumo do capítulo

Como leitores cristãos de clássicos, precisamos exercitar o equilíbrio. Precisamos esperar o melhor dos clássicos (especialmente a superioridade de suas estruturas e habilidades de escrita que representam a vida com precisão), mas também precisamos ser leitores críticos que avaliam a moral e as verdades reivindicadas por um autor. Precisamos ter prazer pela simples atração de um clássico, no entanto sermos analíticos com nossa atenção nos detalhes e avaliação da perspectiva de uma obra. Precisamos valorizar ambos, a forma e o conteúdo do clássico.


*Trecho extraído do livro “A Christian Guide to the Classics”, de Leland Ryken. Crossway, 2015. Capítulo 6 (Como ler um clássico).

Enasfecc

® 2018 por Culturae Compendium.