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OS TEMPOS DA VIDA

Por Tania Maria Geannaccini*

Definitivamente o velho carro já não servia para mais nada. O ferro e o oxigênio haviam agido impiedosamente. Os pneus mais pareciam chocolate hidrogenado derretido - totalmente disformes e esquisitos. Os bancos, ou melhor, o único banco, o do motorista, representava um verdadeiro perigo para qualquer “derriére” que ali se atrevesse a sentar. As molas sem dó, tratavam de expulsar o intruso.


O motor quatro cilindros não dava qualquer sinal de vida. Os antes quatro tempos haviam se transformado em dois: tempo de lembrar e tempo de esquecer. Lembrar do barulho silencioso que ele fazia há anos e esquecer a possibilidade de voltar a ouvi-lo. Precisava dar um fim nessa cama fria e sobre isso já havíamos deixado bem claro, que todos os momentos que vivemos juntos estavam devidamente armazenados nas fotos e nas lembranças que a gente guarda mesmo sem querer. Mas haviam coisas mal resolvidas: O que eu faria com o espaço que surgiria ali? O que eu poria naquele lugar? E se alguém quisesse alugar a vaga? E se as manchas de óleo persistissem no chão? Não. Não seria uma decisão fácil.


Mas não é assim a vida? Cheia de decisões que a gente não quer tomar? Peguei um pelego no sofá, fui até a frente da sucata, olhei no fundo dos seus faróis e fiz um pacto visual com ele: Se der sinal de vida, vou considerar que a sua vontade é sair daqui, então, levo-o para o cemitério. Se não, vai ficar aqui até que o levem!


Joguei o pelego sobre as molas, ajeite-me entre elas ignorando sua rebeldia e, num gesto rápido e certeiro, girei a chave. Minhas mãos tremiam no volante, seria emoção? Nem tanto! Era o motor funcionando e tudo trepidando, acho que uns três graus na escala Richter. Então era isso! Ele havia decidido, a hora chegara! E eu devia respeitar, sem qualquer objeção. Com determinação acionei o controle remoto e o portão se abriu. E lá fomos nós. Ele parecia feliz em depois de tantos anos fazer aquilo que mais gostava: andar pelas ruas da cidade.


Não posso negar que havia um sentimento de ostentação dentro de mim. Estava vivendo meus minutos de fama pois, assim como nos comercias de carros novos, os queixos caiam ao nos verem passar, só que logo em seguida vinham as mãos tampando o nariz.


E assim seguíamos determinados, até que no primeiro semáforo ele engasgou, provavelmente com o CO2, pensei eu, mas a água que escorria pelo esguicho do limpador do para brisa denunciava: o emocional fora ativado. Respirei fundo e tentei pensar num argumento sólido que me deixasse na zona de conforto. Não tive essa oportunidade, o buzinaço começou de forma tão intensa que cheguei a pensar que alguém no Planalto tivesse renunciado. Respirei fundo, dei com o ombro na porta - que cedeu rápido - fui até o primeiro estressado e aproximei-me da janela. Meu reflexo sumia lentamente enquanto o rosto do motorista ia se mostrando, pouco antes que o cheiro de carro novo que vinha do interior do veículo me embriagasse, Expliquei que estava indo levar meu amigo para o cemitério. O jovem, assustado fez uma expressão de tristeza e vergonha, e perguntou:


- Sozinho? Num momento desses? Vou com você!


- Muito obrigado – respondi respirando confortado.


Segui, tentando não pisar tão fundo, pois eu queria ver pelo retrovisor meu acompanhante. Andamos uns dois quilômetros, e novamente meu amigo sucumbiu à emoção! O acompanhante foi ao carro de traz e explicou a situação que repetiu o gesto com o outro e com o outro. Todos emocionados, seguiram o cortejo.


Finalmente chegamos, o lugar era enorme, havia uma mistura de sentimentos ali, uns enferrujados e felizes pelo dever cumprido, outros tristes pelo abandono e descaso. Meu amigo estava visivelmente se enturmando no primeiro grupo, a água já não escorria pelo capô e óleo vazou todo de vez, como se dissesse: estou limpo!

Um homem ruivo de costeletas aproximou-se:


- Tem certeza? – perguntou pesaroso.


- Sim, temos!


Olhei para meus acompanhantes. Cada qual agarrado ao seu amigo, num gesto desesperado com medo que eles pudessem desejar ficar ali. Um homem conversava com seu carro, prometendo cuidar melhor dele enquanto com uma flanelinha, limpava seus vidros. Um jovem prometia sair dali e repor as calotas que havia tirado sem qualquer consulta.


Olhei para meu amigo e ao vê-lo tão à vontade, senti-me aliviado! Afinal, juntos fizemos o nosso melhor, nos divertimos, conquistamos corações, evitamos semáforos vermelhos e pontos na carteira, fizemos curvas radicais, socorremos vizinhos, demos carona... Foi muito bom, mas acabou!


Todos entenderam minha calma e certa alegria; alguém recomeçou o ciclo e me ofereceu uma carona. De pronto aceitei e acenei sinalizando para todos me acompanharem.


No espaço ocupado pelo “enferrujado” coloquei algumas cadeiras, puxei uma mesa e, um a um, todos foram chegando, cada qual com sua sacola de padaria ou supermercado. Houve também aqueles que vieram sem nada, não fez diferença. Ficamos ali por bom tempo, conversando, comendo, cantando e gargalhando. Havia alegria no meu sorriso, afinal, eu e meu amigo não estávamos mais sós.


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