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OS SALMOS COMO EXPRESSÃO HUMANA

Por Luis Alonso Schökel*

Os salmos são expressões poéticas de experiências religiosas. Neles, e por meio deles, os cristãos se dirigem verbalmente a Deus. Entender e explicar os salmos é, sobretudo, entender e explicá-los como expressão de experiência religiosa.


Se nos atentarmos ao fim, Deus, os salmos nos advertem; se nos atentarmos ao orador, os salmos expressam. Assim, distinguimos tal estilo literário da profecia, que é advertência de Deus ao homem; e da linguagem histórica, que é principalmente informativa. É verdade que toda palavra de Deus ao homem o adverte; assim também os salmos, como palavra inspirada. Dentro desta característica geral, os salmos têm sua regra própria. Como portadores do Espírito, eles permitem ao homem dirigir-se sinceramente a Deus, em espírito e em verdade. Os salmos enfatizam os atos humanos.


Compreender a experiência humana poeticamente expressada: não significa rebaixá-los ao psicologismo? Não, porque tentamos entender textos e não nos voltamos para a experiência única do autor. É verdade que o salmo expressa uma experiência humana, mas não necessariamente, ou imediatamente, a do autor. Não é que, necessariamente, o poeta tenha atravessado a suposta situação; não é imediatamente, porque a expressão passa pelo trabalho literário mediando o significado. O que tentamos entender e nos apropriarmos é uma experiência humana expressa no poema. E isso não é um simples psicologismo.


Os salmos, como oração, levantam o problema da experiência religiosa. Se é verdade que tudo o que tentamos entender de Deus nós alcançamos a partir de nosso ponto de vista humano (embora elevado pelo Espírito) e que o entendemos assim que nos toca e nos preenche, também é verdade que a oração coloca em primeiro plano o orador. A expressão é feita na primeira pessoa: ao orar, o homem vem à frente e parece tomar a iniciativa (embora movido pelo Espírito).


Tal comportamento do homem pode ter diversos graus de individualidade. Na oração privada contemplamos momentos de absoluta individualidade, os quais não se repetem.

Nos salmos, sacrifica-se quase totalmente o individual para expressar o compartilhado por uma comunidade, ou por diversos indivíduos.

E nisto os salmos são muito diferentes das outras poesias.


Para entender os salmos como oração é preciso sintonizar-se com eles. A rigor, toda compreensão individual de uma pessoa sobre a outra se baseia na igual condição humana. Sem ela seria impossível uma verdadeira compreensão; haveria apenas vagas analogias, como o colorido imaginado por um cego de nascença. Compreendemos o indivíduo de fora; o homem, de dentro.


Isso acontece também na experiência religiosa, que pode ter elementos comuns em diversas religiões. Isso certamente acontece com os salmos. Se é difícil entender textos religiosos quando não se crê, é muito mais difícil entender orações quando não se é capaz de orar. Assim, a analogia pode nos levar para uma ponte, para depois toparmos em um portão fechado. [...]


Os salmos são poemas. Como expressão e mediação de experiência, eles têm uma entidade própria. Aqui, não se fala de uma espécie de telepatia espiritual que coloca em contato duas mentes sem mediação verbal. O poema está aqui e é nosso principal objeto de estudo. A poesia não conta o que o autor sentiu no ato, mas sim sua expressão válida. Válida talvez para ele, e válida principalmente para o leitor. E não apenas para compreender de fora, mas pela possibilidade que oferece de um compartilhamento verdadeiro.


Se a experiência é de algum modo comum ou comunicável, sua expressão deve ser acessível. Uma expressão pretensiosa ou esotérica pode impedir a comunicação. A linguagem ideal e primária da experiência transcendente, assim como da oração, é uma linguagem de símbolos. Se o poeta utiliza algumas variações de arquétipo ou símbolo elementar, o poema terá passaporte universal com poucos trâmites. Quem não entende o que é estreito e largo, apertado e solto? Quem não se relaciona com o espaço próximo e distante, com o alto e o baixo? Pois também o espírito pode sentir seu aperto e seu espaço: Deus lhe dá largura, Deus é sua largura.


Quanto aos símbolos primários, ainda que intermediados por diversas relações culturais, pode-se comprovar na maioria das vezes e em diversos públicos, que são facilmente compreensíveis. Basta simplesmente recorrer a experiências de qualquer pessoa. Talvez o público mais difícil são os exegetas profissionais. A razão é simples: o profissional geralmente trabalha com o distinto e o incomum, nos usos especificamente israelitas, em suas instituições, nas nuances intransferíveis da língua e estilo... O profissional triunfa mostrando que seu objeto é único. O que não significa que mostrar o comum é antiprofissional, ou que o pastoral seja o oposto do científico. Tão científico é mostrar o comum e o incomum, o coletivo e o individual, quando ambos estão no texto. E não pode-se refutar dizendo que o comum não necessita de explicação por ser imediatamente compreendido. Esse também necessita de explicação e pode exigir uma introdução: as coisas mais óbvias passam desapercebidas. Uma introdução desse tipo poderá ser menos erudita, mas não será menos séria. Muitas vezes, essas introduções são o que busca o público que se sente injustiçado diante da pura erudição.


O contexto vital de que falava Gunkel, como o uso em uma cerimônia litúrgica, pode parecer artificial para aqueles que oram. Uma coisa é descrever uma liturgia penitencial, com suas partes e personagens, outra coisa é sentir o pecado e a condição pecadora, como descreve Paulo em Romanos 7. O princípio de compreensão da experiência religiosa e da fé é mais profunda e importante que a descrição de um contexto de uso, ainda que esta seja útil. E penso que esse deve ser o caminho para preparar o novo uso do texto em nosso contexto de fé.


Porque é disso que se trata, e não menos. Não basta a compreensão, é preciso chegar à apropriação.

O salmo que expressa a experiência de um homem ou de uma comunidade deve converter-se em uma expressão religiosa de um novo homem ou comunidade. Para isso, o salmo precisa produzir uma experiência análoga ou equivalente, e deve converter-se em sua expressão válida.


E não é apenas sobre um homem que, por conta própria, tem uma experiência equivalente para depois, buscando palavras para expressá-las, encontra-se com um salmo que lhe satisfaça (como o apaixonado procurando um poema que diz o que ele sente e não sabe expressar); mais que isso, os salmos podem mediar a experiência análoga ou vicária, contanto que haja uma disposição básica. O Espírito que inspirou os salmos e que os aquece produz em nós uma experiência de fé semelhante, com ou sem mediação dos salmos.


Dada a distância e novidade da experiência de fé cristã, às vezes os salmos simplesmente não se encaixam. Há a falta de uma “fusão de horizontes” semelhante a que descreve Gadamer quando fala sobre compreensão. Seria uma fusão de horizontes de experiência em favor da expressão. Também neste campo os símbolos se brindam como grandes mediadores.


*Trecho extraído do livro "Treinta salmos: poesia y oración", escrito por Luis Alonso Schökel, hebraísta espanhol especialista em poesia bíblica.


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