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O TREM PARA PARIS DE EASTWOOD

Por Simone Teider Bragantin*

Em meio a um contingente de filmes com recursos visuais apelativos, narrativas irreais e personagens (literalmente) incríveis, Clint Eastwood nos apresenta "15h17 – Trem para Paris". As escolhas do diretor, conhecido por seus filmes tipicamente hollywoodianos (e nem por isso menos excelentes), dividem opiniões.


O filme conta a história do atentado ocorrido em um trem que partiu de Amsterdã com destino a Paris, em 2015. Três amigos americanos, patriotas que serviam seu país de origem, estavam a bordo do trem e impediram um radical muçulmano de concluir seu objetivo.


A decisão de Eastwood por utilizar os três "não atores" interpretando a eles mesmos no filme foi certeira (sim, minha opinião é controversa). Eu, que não sabia da escolha quando assisti ao filme, não senti que a atuação prejudicou a narrativa. Ao contrário, deu maior veracidade ao ritmo da estrutura narrativa escolhida, já que a mesma também não segue o modelo “filmes de guerra” de Hollywood. Parece que dessa vez a mensagem é outra, e como consequência, a forma de contar a história também.


Neste filme, não há grandes pontos de virada, personagens que superam seus limites de maneira heroica e que derrotam multidões de inimigos malvados de forma quase sobrenatural ao som de orquestras triunfantes. Aliás, aquele que podemos chamar “o herói da história” nada mais é que um garoto que não se encaixa muito bem na vida e falhou constantemente em suas buscas por conquistas. Um garoto, jovem e homem que se ajoelha e pede a Deus ajuda para fazer o bem.


Diálogos simples, e até repetitivos, dão uma impressão de lentidão - exatamente como a vida real - onde o extraordinário é exceção e não regra, fato que pode entediar uma parcela do público. Quer algo mais real e atual do que um dos personagens parar para tirar selfies o tempo todo?


De fato, assistir a um jovem ordinário e que vive uma vida comum, realizar um ato de tamanha coragem cria uma ponte pela qual realmente se é possível atravessar. Talvez não seja a imagem à qual todos queiram se espelhar, mas é a mais próxima a que se pode chegar.

Disso não há dúvida, somos todos heróis fracassados, aguardando com esperança o nosso grande dia de glória.

No geral, o filme é fiel a si mesmo do início ao fim, e apenas por isso, vale a pena ser visto.


*Simone Teider Bragantin é cocriadora da Culturae Compendium, juntamente com seu marido Thiago Bragantin. Em sua carreira artística já trabalhou em produções cinematográficas diversas e sua paixão pela escrita, que começou pelo roteiro, vem expandindo-se a outros gêneros textuais.


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