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O que aprendi sobre igreja quando enlouqueci

Atualizado: 21 de Mar de 2019



Eu me converti aos 26 anos. Não “nasci na igreja” como a maioria dos membros das congregações em que já estive. Apesar de “começar” a lidar com Deus apenas na idade adulta, os problemas psiquiátricos já eram meus conhecidos há anos. Dito isso, quando o evangelho me foi apresentado eu tomava já uns três remédios psiquiátricos de uso constante e sempre carregava outros dois tarjas pretas para possíveis crises. Mas a pessoa que pregou o evangelho para mim me disse que a partir daquele dia eu não precisava mais de nenhum deles porque eu era uma nova criatura e todas as coisas se haviam feito novas. Naquela época eu não tive muita escolha – não entrarei em detalhes do porquê – a não ser largar todos os remédios de uma vez. Durante alguns (bons) meses fiquei bem, a alegria intensa da minha conversão realmente me consumia e fazia todos os meus problemas emocionais me olharem de longe. Pude ignorá-los por um tempo.


Pela graça de Deus, quando eles começaram a voltar para perto eu estava sendo discipulada por um pastor muito gracioso que conhecia bem de problemas psicológicos e psiquiátricos e soube me encaminhar a um bom profissional e tirar de mim a culpa de precisar de apoio psicológico e psiquiátrico para viver melhor. Ele ajudou a limpar de mim a ideia pesada – e equivocada – que eu tinha do evangelho e me fez entender melhor a graça de Deus, que nos liberta do fardo de precisarmos ser perfeitos para sermos amados por Deus, e isso inclui a saúde mental e física, não apenas nossa conduta moral. Mas o que tenho visto, e vivido, é que não é assim para todo mundo.


Eu tenho uma amiga, vamos chamá-la de Vivi. Um dia, anos após minha conversão, em um jantar da nossa igreja, falei para a Vivi que tomo remédios psiquiátricos, algo que hoje é tão corriqueiro e que soa quase banal para mim. Mas seu rosto brilhou e percebi que ela havia ficado espantada por eu ter compartilhado aquilo com tanta segurança. Ela sentiu que podia compartilhar um segredo e logo o fez.

Vivi fez mais que isso, disse que conhecia mais pessoas que passavam pela mesma "coisa". Chamou todas que estavam ali e elas começaram a falar: “Na igreja diziam para eu não ir à terapia porque assim eu não esqueceria o que aconteceu comigo”, “Pra mim diziam que minha doença era falta de fé”, “Vamos fazer um grupo de apoio”, entre outros tantos desabafos que pareciam estar guardados há tempos.


Infelizmente o grupo não vingou, quiçá porque ninguém quer falar de suas mazelas e derrotas emocionais, ou talvez porque São Paulo é grande demais e não conseguíamos nos encontrar. Mesmo assim, soube pouco do que cada uma delas carregava, mas pude ver que elas estavam sofrendo e precisavam de cuidado profissional para que pudessem usufruir de uma vida funcional e plena. Porém, assim como havia acontecido comigo no passado, a saúde delas estava sendo negligenciada por algum tipo de preconceito que não encontra base nenhuma nas Escrituras, no evangelho de Deus, na liberdade conquistada amorosamente por Jesus Cristo e oferecida a nós, mas apenas em crenças inventadas pelos homens.


Eu me pergunto o que estamos fazendo de errado

Cristãos se importam com o sofrimento humano. Ou, pelo menos, deveriam.

Principalmente com o sofrimento de outro cristão, um membro do mesmo corpo. De fato, Jesus disse que seríamos conhecidos pelo nosso amor demonstrado um ao outro. Como cristã e como uma pessoa que vive d-i-a-r-i-a-m-e-n-t-e com uma doença psiquiátrica, decidi me colocar dos dois lados e me fazer essa pergunta. O que a igreja poderia estar fazendo de errado em relação ao tratamento que dá às pessoas que vivem com doenças psiquiátricas?

Acredito que a resposta para essa pergunta é complexa e não pretendo encerrar a discussão, que fique claro. Ao contrário, por meio das pesquisas que fiz, pude perceber que pouco se sabe porque pouco se fala sobre o assunto, portanto, apenas listo alguns tópicos que parecem ser comuns entre pesquisadores/escritores e cristãos com doenças psiquiátricas que já vivenciaram dificuldades para integrar-se na vida de uma comunidade cristã.


Um dos grandes motivos que faz com que um cristão deixe de procurar ajuda pastoral é o estigma. Detesto essa palavra porque já virou um clichê psiquiátrico, mas vamos olhá-la um pouquinho de perto. Estigma, originalmente, significa marca ou sinal no corpo. O que queremos dizer aqui é que a pessoa que passa por determinada doença (ou tiver determinada doença psiquiátrica, no caso) ficará com uma marca que nunca irá embora, e essa marca trará consequências na sua vida comunitária. Quem nunca ouviu a frase: “A fulana é louca” ou “Ele não tomou o remedinho hoje”? Parecem bobos, mas esses, entre outros comentários, podem acontecer após a revelação de uma doença mental. Depois que recebi meu diagnóstico, meus amigos e familiares mais próximos parecem todos preocupados em não fazer comentários sobre loucos, a fim de não me magoar, isso quer dizer que todo mundo os faz em algum momento. Parece cruel, mas você mesmo (e eu, admito) já deve ter feito algum desses comentários.


Fora isso, somos pressionados (quando não acusados) de ter uma vida espiritual pobre ou estarmos longe de Deus. Olhe para Jó que, ao estar todo estropiado, vai procurar os amigos para receber conforto e amor e sai achando que estava em pecado e longe de Deus. Soa familiar? Para mim, extremamente.

Um dia, ao procurar um pastor (outro, não o do começo do artigo) para conversar sobre uma situação muito difícil e dolorosa da minha doença, ele disse “eu acredito em um Deus que transforma”. Ok, meu bem, o quão diferente isso é de falar “você não está orando o suficiente, pois se estivesse, Deus te transformaria e você seria curada dessa doença”? Fico pensando se ele falaria a mesma coisa para um diabético que reclamasse que seu pâncreas não funciona muito bem. Tenho certeza que não. Deus me transforma todos os dias, inclusive usa as agruras da minha doença para ministrar sua graça, mas uma doença é uma doença. O estigma da doença psiquiátrica é real e pode afastar as pessoas de um possível tratamento (com o intuito de evitarem o descrito acima) e até do convívio da igreja.


Dito isso, esquecer é outra coisa bem fácil de fazer com esses irmãos. Porque, convenhamos, a comunhão por si só já é difícil, mas quando uma pessoa tem uma doença psiquiátrica, seja leve ou hardcore, e exige ainda mais de nós, a convivência pode ser inconveniente, irritante e exaustiva. Desde tentar puxar assunto com uma pessoa depressiva e desanimada a tentar aguentar uma pessoa bipolar, não é fácil. Concordo, não é nada fácil! Passe uma tarde comigo num dia de crise e saberá.


Além disso, muitas doenças podem fazer pessoas terem medo de frequentar o culto ou pequenos grupos, seja por ansiedade, medo de contato ou até pelos estímulos visuais e sonoros, que assustam ou incomodam. Fases ruins de algumas doenças podem requerer internação psiquiátrica, fazendo com que fiquem fora por meses. Quando estão na igreja, as pessoas podem ser inconvenientes, falar sozinhas e sair no meio da celebração. Há um sem número de opções. Quando elas somem é mais fácil esquecer que elas existem, e que precisam de ajuda, desejam companhia e querem se sentir amadas pela igreja.


Porém, suponhamos que uma comunidade cristã consiga ultrapassar essas duas primeiras barreiras, geralmente seus líderes e membros ainda podem esbarrar no desconhecimento. E desconhecimento gera medo.

Já ouvimos falar um pouco sobre depressão, ansiedade e até algumas outras doenças mentais que atingem jovens e adolescentes, como os transtornos alimentares. Até aí, nenhum susto tão grande. Mas e quando o negócio começa a complicar e nem conseguimos mais pronunciar o diagnóstico? Transtorno esquizoafetivo, transtorno de personalidade borderline, transtorno bipolar, esquizofrenia, transtorno obsessivo-compulsivo e por aí vai.


Independentemente de sabermos o nome da doença ou não, o fato é que, na maioria das vezes, não sabemos lidar com quem vive e luta com uma doença psiquiátrica, seja ela passageira ou permanente. Em geral, não sabemos como nos aproximar, conversar e criar um vínculo para conhecer verdadeiramente essa pessoa. Isso porque temos medo do desconhecido. Mas acredite, para quem deseja, há formas.

Também não nos damos ao trabalho de conhecer a doença, seja por meio dos familiares, amigos ou inclusive pesquisas médicas de confiança (porque há muita porcaria publicada por aí, CUIDADO!), para fazer um irmão se sentir amado e compreendido. Realmente parece ser um grande sacrifício, mas o amor não é isso? Cristãos aprendem amar com Jesus. O amor dele é um sacrifício mortal.


A doença psiquiátrica é o tipo de coisa sobre a qual não gostamos de falar, um tabu (só para jogar mais um clichê). Ela não leva a soluções simples e a momentos felizes, acredite, nós sabemos e vivemos todos os dias. Então, muitas vezes, reduzimos pessoas a caricaturas bizarras e simplesmente fingimos que elas não existem.

No entanto, elas existem. Nós existimos. E as estatísticas sugerem que os números continuarão aumentando – algo que não surpreende, apesar de ser triste. Você sabia que, em uma comunidade com cerca de 200 membros, estatisticamente é provável que existam pelo menos 4 pessoas com alguma doença psiquiátrica severa? Daquelas que você não consegue pronunciar o nome e não sabe como funciona? Olhe para os lados e você nos descobrirá em pouco tempo. Provavelmente estamos escondidos com medo de sermos descobertos, mas olhe com os olhos de Jesus e você perceberá que também queremos fazer parte da comunidade e servir no corpo de Cristo.


Será que servimos para alguma coisa na Igreja de Cristo?

Na sua primeira carta aos Coríntios, no capítulo 12, o apóstolo Paulo diz, “De fato, Deus dispôs cada um dos membros no corpo, segundo a sua vontade. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? […] Pelo contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são indispensáveis, e os membros que pensamos serem menos honrosos, tratamos com especial honra. E os membros que em nós são indecorosos são tratados com decoro especial, enquanto os que em nós são decorosos não precisam ser tratados de maneira especial.” (1 Cor 12.18,19,22,23,24)


Precisamos partir do princípio que a unidade da igreja não significa uma igreja uniforme, onde todo mundo é igual, pensa igual, se veste igual, etc. Claro que, da boca pra fora, sempre fingimos aceitar isso, mas é mentira. Mas o que Paulo está dizendo aqui aos coríntios é algo muito mais profundo.


Primeiramente, Deus colocou cada um na igreja como ele quis, com o dom que ele desejou e distribuiu, e todos os nascidos do Espírito Santo são membro do corpo do Cristo e têm um dom. Cristo vive fisicamente na igreja, fala por meio dela, ama por seu intermédio, salva por meio dela, auxilia e cura por meio dela. Por meio de todo – repito, todo – o seu corpo. Mas como "bons" pecadores, os membros da igreja de Corinto (assim como nós hoje) diziam não precisar uns dos outros, os “maiores” deles eram espirituais o suficiente sozinhos – para quê serviriam os fracos e indecorosos?

Porém Paulo os ensina algo essencial e que parece quase bobo: se todos fossem um mesmo membro, que corpo é esse, gente? Mesmo que você considere a mão mais importante que o cotovelo, não dá pra ter corpo feito só de mão. Essa é a ideia.


Mas então vem o que considero mais interessante, ao invés de pintar uma figura da igreja perfeita, com diferentes membros perfeitos e alinhados, Paulo diz que existem sim os mais fracos, que são indispensáveis e devem ser tratados com especial honra. Mais do que isso, há ainda os indecorosos, aqueles dos quais temos vergonha, e aqui, comentaristas bíblicos sugerem que Paulo compara esses membros àqueles órgãos do corpo que sempre cobrimos, como os genitais, sugerindo que são pessoas do corpo de Cristo ainda mais delicadas e complicadas de se tratar. E adivinha? Devem ser tratadas com decoro especial. Claramente, também têm uma função no corpo de Cristo e na igreja. Não quero abrir a questão aqui para outros cristãos fracos e indecorosos, tenho certeza que muitos encaixam-se nestas categorias, mas vou ater-me apenas nos doentes psiquiátricos. De depressivos a ansiosos, bipolares a esquizofrênicos.


Então acontece que quando somos estigmatizados, esquecidos ou ignorados pelo desconhecimento dos nossos irmãos; quando nos acusam de ter pouca fé por causa de nossos sintomas ou por tomar nossos remédios; quando esquecem que todos os dias viver dói uma dor de morte e isso afeta nosso presente, nosso humor, nossa saúde física, nossa família, nosso trabalho e nossos relacionamentos; quando somos negligenciados na vida comunitária porque não conseguimos ser populares nós não somos tratados com especial honra, com especial decoro e nem mesmo com respeito e amor.

Mas além disso, também não nos é dada a oportunidade de tratar toda a nossa igreja da forma como ela deve ser tratada, porque tudo o que queremos é estar inseridos no corpo de Cristo. Queremos servir à igreja e fazer discípulos, pois foi para isso que fomos chamados quando entregamos nossa vida a Jesus Cristo. E quantas vezes nos perguntamos, há lugar para nós?


Henri Nouwen, um conhecido teólogo falecido em 1996, passou seus últimos dias cuidando de doentes mentais e físicos – os fracos e indecorosos – após deixar seu posto de professor nas universidades de Harvard e Yale. Ele pastoreava, cuidava, conversava com a equipe de enfermeiros mas principalmente, e esta era a paixão da sua vida, com os internos da Comunidade L’Arche, instituição cristã que cuidava de pacientes com casos graves de doenças físicas e mentais e foi onde ele viveu até os últimos dias da sua vida. Essa é sua impressão sobre a convivência que, segundo ele, mudou a sua vida: “A instituição não existe para ajudar os deficientes mentais a ficarem ‘normais’, mas para ajudá-los a compartilhar seus dons espirituais com o mundo. Os pobres de espírito nos são dados para nossa conversão. Em sua pobreza, os deficientes mentais revelam Deus para nós e nos mantêm perto do evangelho”.


Graça super abundante

Em 2018, quando eu recebi meu diagnóstico – que não compartilharei porque existe muita porcaria escrita sobre ele por aí – durante os primeiros meses do meu primeiro ano de casada, eu não conseguia ir à igreja por causa do barulho e da grande quantidade de pessoas, mas como já vinha tentando deixar meu orgulho para trás eu pedi a irmãos da igreja por ajuda e visitas. Eu e meu marido precisávamos de cuidado, estávamos sozinhos o tempo todo e principalmente ele necessitava conversar com alguém diferente. Ninguém veio. Inclusive fomos acusados de sermos os responsáveis de estarmos distante da igreja. Não. É mentira. A igreja se afastou de nós, porque nós imploramos ajuda e ela nos deu as costas. Claro, alguns mandaram áudios pelo Whatsapp e foi esse o amor que recebemos. Meu marido recebeu duas visitas. Eu não recebi nada, nem áudios de Whatsapp.


Percebi ali que não era parte daquela igreja, daquela parcela do corpo de Cristo em que havíamos escolhido estar. Os membros decorosos, os que cantam, dançam, pregam e declamam e estão sempre sorrindo estavam constantemente lá na frente. Eu estava em casa esperando alguém lembrar que eu existia e precisava deles também. Ninguém lembrou. Meu intuito não é magoar ou dizer que ela é a pior igreja que existe. Aliás, ela é uma boa igreja, é o que temos para os dias de hoje. Isso é o que é pior, isso aconteceria, provavelmente, em qualquer igreja. Mas prova que aquilo que eu disse que poderia acontecer com alguém com doenças psiquiátricas dentro da igreja, realmente acontece. Resumindo: eu já era uma pessoa quieta, de repente sumi e fui esquecida. Simples assim.


Pela graça abundante de Deus, tudo nos foi suprido, amigos de antigas igrejas, familiares, pessoas enviadas por Deus para que sentíssemos seu amor e seu cuidado. Nada nos faltou: conforto divino, esperança, cuidado médico, medicamentos, repouso, recursos e até uma ex-equipe de trabalho que valeu por uma igreja. Tudo isso Deus providenciou de uma maneira amorosa e graciosa. Mas com certeza, o abraço terno de uma comunidade que soubesse, compreendesse e acompanhasse faria toda diferença. Em relação à igreja, eu me senti como um baço apodrecendo no lixo, um membro inútil que ninguém quer mais e não vai fazer falta.


Por Simone Teider Bragantin


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