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O INVERNO DA ALMA

*Por Leandro Passos



A insônia advinda da mente intranquila de Gregório causava não apenas uma, digamos, carência de humor, como também uma baita dor de estômago. Não era uma insônia comum, de caráter patológico, que impede as pessoas de dormirem à noite por distúrbios do sono. Gregório tinha uma saúde de ferro, aliás. Foram raros os momentos em que ele teve de ir ao médico, mesmo porque não era mero resfriado ou dor de cabeça que o faziam preocupar-se.


Preocupar-se! Essa sim era a razão pela qual Gregório tinha uma insônia contínua. Ao passo que sua saúde física era imbatível, sua saúde mental era mais precária que o povo da Romênia no governo de Ceausescu. Sua preocupação, assim como sua insônia, também era incomum. Gregório não se preocupava com as contas que ainda não havia pagado, com o rebaixamento iminente de seu time de futebol para a série C, ou se passaria mais uma semana sem que seu chefe o demitisse – embora necessitasse de seu trabalho para sobreviver, ele não tinha o menor entusiasmo pelo seu ofício de escrevente no Fórum de Carapicuíba. Precisava lembrar-se com frequencia do quanto era importante o seu salário para compensar a mediocridade de seu ofício e o desperdício de seu tempo cotidianamente, carimbando processos vez após vez. Sem contar o tempo gasto para chegar ao trabalho, pois morava bem na divisa de Jandira com Itapevi, e não possuía veículo próprio. Dependia do intermunicipal para chegar ao trabalho, que, além de caro, gastava um tempo danado até chegar ao centro da cidade.


Gregório não tinha um salário ruim. Uma característica comum do brasileiro é a senda que peleja a fim de conseguir um cargo público. A famosa granja por dinheiro fácil. Mas, como muitas coisas que pensamos irrefletidamente, fácil pode ser tão relativo quanto trabalho. E Gregório sentia esse amargor por ter-se dedicado tanto na adolescência por um cargo que agora o consome de forma fracionada a cada dia.


A questão é que a insônia e a amargura de Gregório eram profundas. Causadas pelo excesso de culpa e a falta de alternativa para expurgá-la. Desde pequeno, sua mãe, sempre supersticiosa, praticante da religião espírita, alertava-o sobre o carma – acreditava piamente nessa doutrina de ação contínua, mesmo sem saber de sua raiz hinduísta, que só foi ser adotada pelo espiritismo por conta do sincretismo religioso.


Ainda cedo, Gregório sentia o peso dos atos cometidos em vida – e das vidas passadas. Perto de atingir a adolescência, sua mãe converteu-se ao cristianismo, e obrigou-o a frequentar a catequese semanalmente. Fez a primeira comunhão, a crisma, cumpriu todos os protocolos. Mas sempre sentia dificuldade com a confissão, pois era algo que o assombrava, falar de seus pecados. Mesmo não mais acreditando em vidas passadas, por orientação da nova religião, agora a oficial da família, ainda assim era difícil lidar com as próprias faltas.


Os pecados de uma só vida já são suficientes para condenar a sã consciência – ou não tão sã assim... Essa ideia o assombrava tanto que, ao atingir a maioridade, considerava-se cristão só de título, para se sentir parte dos 86,9% de brasileiros que se declaram cristãos para o senso do Instituto Brasileiro de Pesquisa – mas suas práticas, as havia abandonado quase por completo, restando apenas uma reverência ao passar na frente de uma paróquia, quiçá um terço vez ou outra quando vai visitar sua mãe em Barueri, na casa onde nasceu e cresceu. A mãe, mesmo cristã, manteve as superstições de sempre, e em toda visita pedia para o filho uma reza para expulsar os maus agouros.


Entre um cigarro no intervalo do dia e uma dose de Velho Barreiro na saída do trabalho – os únicos prazeres de que conseguia desfrutar plenamente, tabaco e álcool – o momento em que fazia Gregório ter algum alento era na leitura. Já que não conseguia dormir, sempre tinha à cabeceira um livro. Fora os bares da cidade, também era um grande frequentador de sebos. Tinha desde romances, mistérios, a tragédias e teatro. Ao longo de sua vida, a primeira coisa que conseguiu fazer com que Gregório pensasse menos em causas existenciais e no carma de sua vida, foi a bebida alcoólica e o cigarro. Com o tempo, aprendeu a administrar melhor seus sentimentos lendo romances.


Tudo começou com uma namoradinha que ele arrumou na época da faculdade de Direito – que acabou não terminando porque passou no tão sonhado concurso público, e não via mais razão para continuar a faculdade para uma função que nunca iria exercer. Em uma conferência sobre Antônio Gramsci na Universidade de São Paulo – com o intuito único de conseguir horas complementares para cumprir as exigências de seu curso na época, já que ele não fazia a menor ideia de quem era o autor em questão, inclusive, ao longo das palestras, foi sentindo um certo desconforto pelas ideias que ali eram disseminadas - acabou conhecendo uma “uspiana” com quem fez amizade e acabou por virar um namorico. Ela insistia constantemente para que ele lesse algum romance de Dostoiévski, o tema de sua pesquisa na faculdade de Letras. De tanto insistir, Gregório leu, enfim, Crime e Castigo.


Ficou perplexo com a leitura. O drama de Raskólnikov foi tão marcante em sua vida que, seu namoro tendo acabado há meses, ele ainda continuava pensando no livro que o perturbara tanto. Daí em diante Gregório iniciou sua busca por mais romances, o que o levou a ler mais literatura, teatro, etc. Isso significou um grande avanço em sua vida. Ajudou-o a organizar suas emoções, a aliviar, em certa medida, seu estresse e outras coisas. Mas sua insônia, que desde a época da crisma era pungente, e aquela dor de barriga perene, nem o álcool, nem o tabaco, nem a literatura deram jeito. Passou anos pensando no carma, mas até essa ideia deixou pelo caminho, talvez pelo seu repertório de leitura, acabou por deixar tais ideias de lado. Encarava cada vez mais a vida de uma forma mais sóbria – ao mesmo tempo ébria.


A questão é que, toda noite, ao deitar-se para dormir, ou pelo menos tentar, Gregório pensava nas personagens dos romances que leu, ou nos vilões, ou na vida dos santos homens e suas biografias, e via no contorno das narrativas as virtudes desenhadas ali. Via os dramas e as angústias culminarem em um propósito maior, em um final feliz, em um ato heroico, ou no serviço divino. Mas ao cair do dia, com a cabeça no travesseiro, ao olhar seu rosto no pequeno espelho que deixava em cima do criado mudo, só conseguia enxergar seus próprios vícios. Não havia nenhum dom ou virtude que pudesse encontrar em si para sobrepujar seus vícios na balança de sua consciência.


Gregório sabia que se Samuel fosse visitar Jandira, com certeza não o ungiria para ser o rei de nação alguma. Ao contrário, ele vivia com a impressão de que carregava a marca de Caim em sua testa. Ler os clássicos trazia alento a sua alma, oferecia a vivência do mundo, mas ao fechar o livro Gregório tomava consciência de si. Ele nasceu na era do positivismo, da autoridade da ciência, no mundo pós-Nietzsche, onde não há Deus e onde tudo é relativo. E se assim o é, o que explica aquele sentimento de deslumbre ao recitar o canto das Musas para inspirar o rapsodo, ou de vivenciar o amor de Romeu por Julieta, ou até o desespero com a morte de Gregor Samsa e a indiferença de todos os que viviam ao seu redor? A verdade é que havia uma grande desarmonia entre a vida interior de Gregório e sua realidade externa, a que era chamada de realidade social, que, conforme ele aprendeu na faculdade, era o que determinava sua consciência.


Porém, a sua própria consciência apontava o oposto, e era essa sua briga diária consigo mesmo. A incongruência de uma natureza amputada.

De um ambiente hostil no qual a alma deve suprimir qualquer sentido transcendente para dar vazão aos instintos que, segundo o pensamento do século, é o determinismo do progresso iminente. Esquecer os paradigmas do passado, em um materialismo histórico em que a sua síntese está na superação da verdade. Na subjetividade. No olhar do homem para si mesmo e dele para a vida. Basta vivenciá-la como um porco vivencia uma espiga de milho. Sempre como fim último a busca pela felicidade, atendendo, para isso, todos os seus desejos.


Essa nova moral, se assim poderíamos chamá-la, deveria funcionar para uma vida feliz e sem preocupações. Mas na vida de Gregório só causava mais insônia e dor de estômago. Cogitava até pedir alguns exames – o que era tão raro quanto um cometa Halley – com medo de desenvolver uma úlcera.


Em um belo dia de outono, algo inusitado aconteceu. Gregório adormeceu. Não foi o álcool, nem o tabaco, nem suas histórias – o que permitiu que um certo dia Gregório Sales Junior adormecesse em um sono profundo, que o fez perder o horário do intermunicipal e causou um débito de quarenta e cinco minutos em seu banco de horas do trabalho, que o fez trabalhar até mais tarde durante dois dias seguidos para poder compensá-lo, foi em uma de suas elucubrações rotineiras.


Lembrou-se de uma aula de catequese quando tinha quinze anos. Viu claramente, como que por iluminação, o Padre Januário dizendo a ele que, o Deus que criou todas as coisas, que fez tudo certo, com ordem e beleza, e que encarnou entre os seres humanos para sofrer na mão deles, por suas desordens internas como efeito do pecado original, resultando em sua morte, a morte do Deus-homem, prometeu voltar um dia.

Voltar para chamar seus filhos, restaurar a ordem de sua criação e fazer um novo dia nascer no resplendor de sua glória.

Dizia tudo isso de forma entusiasmada e cheia de brilho, de modo que, na época, acendeu uma chama no coração de Gregório. Mas foi uma chama que não subsistiu a todo frio que o século presente proporcionou a sua vida. Ainda assim, sua memória incumbiu-se de armazenar esse discurso cheio de vida em algum canto remoto, e decidiu revisitá-la agora.


Enquanto Gregório lembrava dessas palavras mais do que qualquer outra coisa, elas fizeram com que, aos poucos, seu caos interno fosse desaparecendo, sendo esquecido, deixado de lado, e, de repente, Gregório dormiu.

Enasfecc

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