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O ESPELHO VERDE

Atualizado: 29 de Mar de 2018

Por Simone Bragantin*


Quando a menina mudou-se para a nova casa, veio antes de seu (agora) marido – que na época carregava o título de noivo. Em sua primeira noite sozinha ali, percebeu que não havia espelho, fora o pequeníssimo do banheiro – pelo qual só conseguia ver os próprios olhos, e olhe lá. Ponderou quem vivia ali antes, sem conseguir ver o corpo inteiro. Imaginou que eram argentinos, talvez porque eles tenham um je ne sais quoi.


Até o dia do casamento passaram-se quase seis meses. Seis meses ela vestiu-se sem ver o corpo, experimentou roupas e roupas sem ver nem ao menos um reflexo. Precisamos confessar que isso não deve incomodar a ninguém. Porém, ela estava noiva. E qual a prerrogativa de toda noiva (aparentemente, não opcional)? Emagrecer para o “grande dia”. Apesar de achar um absurdo essa exigência, é mais fácil seguir a corrente que andar sem sair do lugar, não é mesmo? Sim, simplesmente porque ir contra a corrente cansa, e dói – não necessariamente nessa mesma ordem.


Apesar dos grandes sustos e dores que a afligiram, foi o melhor ano da vida dela: demissões, tumores, cirurgias, luto, morar (bem) longe do noivo, cuidar da casa sozinha, cozinhar e limpar o chão engordurado da cozinha. De repente tudo havia mudado, menos ela. Parecia um furacão, mas por dentro buscava a paz. De fato, o melhor ano de sua vida.


Porém, essa noiva - hoje esposa - derrete como um relógio nas mãos de Salvador Dali a qualquer forma de pressão. Lembra-se de uma entrevista de emprego em que a perguntaram como ela se sente quando é pressionada. “Ah, muito bem”, disse ela, mentindo.


Uma mulher que está muito aquém daquilo que o mundo quer, seja fisicamente, emocionalmente, espiritualmente e, vamos lá, humanamente - pisa em formigas, mata baratas e se alimenta de vacas. Logo, a já não tão jovem tinha seis meses para ficar bem magra pro casamento – segundo amigas (favor imaginar aspas nessa palavra) era a hora do projeto “noivorexia”.


Dois grandes pés vão para trás quando escuta absurdos como esse. Enquanto alguns morrem por não ter o que comer, alguns morrem por não quererem comer. O último sempre foi o caso dessa noiva. Transtorno alimentar e seus seguidores mentais e emocionais. Que se apresentam como uma pequena e deliciosa garota antes de te afundar em um tsunami de desordem, caos e descontrole.


Antes do casamento, e também por causa dos olhos cegamente apaixonados do seu marido, os números da balança subiram. Nada que preocupasse um ser humano normal. Mas ela nunca foi um ser humano normal.


As atuais tentativas de descrever a humilhante realidade em que vivem pessoas com transtorno alimentar são tão medíocres que um banho de soda cáustica parece mais palatável. Melhor poupar detalhes sórdidos.

Enfim, casados. Ela, com quilos a mais, ele também. A lua de mel ajudou a aumentar o diâmetro do casal. Todo carinhoso, o marido decide instalar um espelho no meio do quarto. Na hora em que ela está escolhendo roupa, seu corpo está ali, julgando-a. O espelho refletindo uns erros de photoshop, porque “não é possível que eu seja assim”, exclama a agora esposa. E convenhamos, haja luz e filtro para amoldar-se aos padrões do mundo. Pensou estar grávida com apenas 10 dias de casada. Não, foi a comida mesmo.


Para cuidar da amada, o marido tem uma técnica infalível: ele a coloca em seus braços como um tatu-bola e ela ri.


- Com quem eu casei? - diz ele.


- Comigo - responde com risos em meio às lágrimas


- Quem é minha pra sempre?


- Eu - ela continua. Ele a segura bem forte.


- Quem vai cuidar de você para sempre?


- Você.


E, por mais investidas que sua mente e o famigerado espelho façam contra o seu corpo, o amado a olha e diz, "minha belezura".


Um dia, sem fazer ideia de como e quando aconteceu, o espelho do quarto estava ao contrário, não se via nada além de uma superfície verde. Ele estava no mesmo lugar, pendurado ao contrário, com o fundo verde para frente. Agora, a mulher precisará confiar naquele que a ama. O seu amado espelho verde.

Enasfecc

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