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O ABUSO SEXUAL INFANTIL E O PERDÃO


Há muito já havia se esquecido dele. Em sua inocência, ou o que parecia ser inocência, acreditava já o ter perdoado. Em sua ingenuidade. Sim, era essa a palavra, ela não entendia muito bem como o perdão funcionava. Seguiu a vida até que o passado a alcançou.


Um belo dia, numa vívida lembrança. Mais vívida que um sonho, que cheiro de mingau de mãe no café da manhã no inverno, ela voltou. Não o havia perdoado? O que faz aqui? Que se vá embora com suas mãos, seu sorriso maligno, seus dente amarelos, seu rosto indígena e seu nome inesquecível. Mauri.


Como decidira voltar à memória e perturbar a alma, que agora já não tinha mais a certeza do perdão que um dia havia concedido, o procurou. Graças às novas redes sociais o encontrou com uma cara de acabado. Com um simples clique na tela, desabafou 26 anos de dor:


“Olá Mauri, tudo bem?

Provavelmente você não deve se lembrar de mim, afinal, faz quase 30 anos que não nos vemos. Bom, pra me apresentar preciso primeiro te lembrar de uma namorada que você teve, ela é minha madrinha, do interior do Paraná.

Eu costumava brincar na loja de roupas dela com o meu primo da minha idade, tínhamos uns 4 anos.

Imagino que algo já deve ter passado na sua mente. Lembra quando você nos chamava para ir para o quarto da tia “brincar de cosquinha”? Pois é, por muito tempo eu também esqueci (a psicologia chama de dissociação) mas chegou o momento de relembrar, não é verdade?

Lembro de olhar de baixo, eu via você e seu rosto, que sempre achei meio indígena, sorrindo e nos chamando para o quarto, todo feliz falando baixinho pelo corredor de madeira.

Não lembro ao certo se eu queria ir, se você usava algum outro tipo de artimanha, mas de repente eu estava na cama da minha tia com a sua mão por dentro da minha roupa, debaixo da minha calcinha.

Eu não lembro de chorar, rir, brigar, espernear, nem nada (de novo, a dissociação)… Afinal, um adulto que deveria me cuidar não deveria estar fazendo nada de errado, não é? Mas fez.

Eu não espero, de coração, que essa mensagem te leve ao arrependimento sincero, por mais que diante de Deus isso seria um alívio para você.

Meu único desejo aqui é dizer que EU SEI, que eu lembro de tudo, que eu sofri e que eu só tinha quatro anos.

Você me fez pensar que meu corpo, além de ter algo errado com ele, era sujo e não valia nada. Foi assim que eu vivi durante toda minha vida. Não consigo lembrar de quantos remédios tomei, quanta terapia fiz – e faço.

Quero te dizer que eu não sou mais aquela menininha indefesa de quatro anos (imagino quantas outras existiram antes e depois de mim, inclusive suas filhas). Eu ainda luto com o meu corpo e minhas emoções são um parque de diversões da minha mente.

Apesar disso tudo, eu não trocaria minha vida por nada, não por você, porque você precisa de tanta ajuda quanto eu. Mas porque ela me tornou quem eu sou e me permitiu ajudar outras que passaram pelas mesmas coisas que você me fez passar.

Para finalizar, quero te dizer que te perdoo. Sabe o real significado do perdão? É como se alguém tivesse uma dívida com outra pessoa. Aquele que tem direito chega pro devedor e diz: Fica tranquilo, sua conta esta zerada! Então, por tudo o que você fez contra o meu corpo quando eu tinha quatro anos e não pude me defender, você está perdoado. Você não me deve nada.

Você abusou de uma criança e por isso, alguns diriam que você merece cadeia, uma surra, um espancamento. Afinal, não podemos negar que você roubou minha inocência, o desenvolvimento saudável da minha sexualidade e minha visão saudável em relação ao meu corpo. Mas sabe o que eu te dou? Perdão.

Você não me deve mais nada, pode ir em paz e seguir sua vida. Essa dívida está paga. E não é por mim, é pelo meu Senhor Jesus Cristo. Sobre o qual já orei inúmeras vezes para que ele te alcance. Sinceramente, ele morreu por mim e por você, da mesma forma. Desejo realmente que Deus te abençoe imensamente e que sua vida seja cheia de paz e graça.”


Ela sabia que a mensagem tinha uma mistura de desabafo com perdão, mas o perdão era real, só precisava tirar coisas do coração. Logo depois de escrever a mensagem, ele respondeu:


“Olá. Sim, me lembro de você e agradeço de coração suas palavras. Não tenho o que falar. Desejando tudo de bom e o melhor a você. Desejando também que sua vida seja cheia de felicidades. Não me esqueço de você em orações. Abraços.

Não fui feliz nos 2 casamentos.”


Ao terminar, ele tentou ligar pela rede social, ninguém mais tem privacidade nesse mundo. Nesse momento, uma ânsia de vômito subiu pelo seu estômago. Ao bloqueá-lo ficou pensativa. Se sentiu tudo isso, será mesmo que o perdoou?

Pouco depois, comentando essa história com seu marido, ele, muito sábio, disse que as setenta vezes sete que Jesus diz que devemos perdoar não quer dizer que, necessariamente, devemos perdoar a pessoa que nos ofende repetidamente, com pecados e ofensas novas. Por vezes, é preciso que perdoar setenta vezes sete a mesma pessoa pelo mesmo pecado. Depois de ouvir aquilo, aquietou-se alguns segundos ouvindo a música que tocava no carro, abriu o bloco de notas do seu celular e escreveu: “EU VOU TE PERDOAR TODOS OS DIAS”.


Por Leah Weil

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