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NOTAS SOBRE A IMAGINAÇÃO

*Por Luis Alonso Schökel



Na relação Autor-Tema-Receptor [...] há um forte aspecto que aparece nos três fatores envolvidos neste relacionamento: a imaginação.


O artista, narrador ou poeta usa a imaginação de várias maneiras. Inventa situações e personagens. Imagine uma cena: casa, sala, floresta, estrada. Você olha de fora como espectador ou move-se para o interior, participando da cena. Em suas visões, Ezequiel não continua como um espectador, mas age como protagonista: na cena dos ossos (Ezequiel 37:1-14), ele tem que pronunciar a profecia e então assistir as consequências.


Na cena da fonte (Ezequiel 74:1-5), precisa atravessar a água três vezes e senti-la em seu corpo. Da mesma maneira, quando sonhamos, não somos meros espectadores.

Quando o autor cria seus personagens, de alguma forma tem que entrar no interior deles, observar e compartilhar seus sentimentos. Deve colocar-se em seu lugar e, ao mesmo tempo, observar como eles agem e reagem. O autor enfrenta à Judite com Holofernes: ele não é nem uma bela mulher e nem um general orgulhoso, mas em sua fantasia ele é as duas coisas e observa o desenvolvimento da cena (assim como o músico, que cria uma melodia e a escuta internamente).


Mais tarde, ao escrever a história ou o poema, ele usa outros recursos da imaginação: detalhes descritivos, metáforas e símbolos. Judite vai deitar-se em um leito enquanto come com Holofernes: um toque a mais de sensualidade (Judite 12:13-20).

Nessa fase, o autor não deve descrever tudo, porque isso não faz falta. Sua arte consiste em selecionar os detalhes que recriam toda a cena. As mãos da mulher morta na soleira da porta (Juízes 19:27); o sangue escorrendo na parede e os cavalos que o atropelam (2 Reis 9:33).


Da mesma forma, o poeta lírico pode entrar na situação de outro personagem. Por exemplo, um autor compõe um poema usando a fala de um moribundo (Salmo 88).

Os autores dos salmos entram em situações diversas com a imaginação e, assim, criam seus poemas.

Nós referimo-nos aos poemas originais, não aos poemas convencionais, feitos de clichês ou vagas memórias.


O receptor

Passemos agora ao leitor. Entre a maioria dos exegetas reina uma profunda desconfiança diante da imaginação do intérprete. Eles pensam que “o mundo da lua” serve apenas para afastar o leitor do texto e de seu sentido verdadeiro. Frases como “isso é fantasia, pura imaginação” são um bom diagnóstico para desacreditar de um tipo de exegese.


É verdade que a imaginação muitas vezes extrapola seus limites. Muitos comentários midráshicos são divertidos e outros, excursões de fantasias: o diálogo de Caim e Abel sobre uma outra vida, o demônio Asael cavalgando sobre a serpente do paraíso... No entanto, não podemos condenar em definitivo alguém que comete alguns deslizes, já que a imaginação é um órgão extraordinário e necessário de compreensão e interpretação. Gunkel pedia ao exegeta uma “fantasia moderada” ou com rédeas (gezügelte Phantasie). E ele estava certo, já que o que foi escrito como fantasia tem de ser lido como fantasia.


Veremos mais tarde que o idioma estiliza a realidade, articulando-a e deixando espaços intermediários vazios. Ao reduzir o contínuo da realidade e da experiência, ele generaliza em um nível básico.

Cabe à imaginação preencher os espaços vazios e devolver a materialização àquilo que é genérico.

Entre cada ponto e detalhe, existem espaços intermediários que a imaginação percebe, aos quais podemos visitar para observar ou reviver.


Ainda mais no relato da história. Se com dois recursos o bom narrador recria uma cena, cabe à imaginação do leitor completá-la. Em duas características, o profeta Isaías resume a guerra: “bota de guerreiro usada em combate e toda veste revolvida em sangue” (Isaías 9:5). Outro poeta vê e ouve os peregrinos ao chegarem a Jerusalém: “Nossos pés já se encontram dentro de suas portas, ó Jerusalém!” (Salmo 122:2). Para esconder os espiões, um aldeão os coloca num poço no curral e “a dona da casa colocou a tampa no poço e, para disfarçar, espalhou grãos de cereal por cima” (2 Samuel 17:19). Contando o assassinato de Is-Bosete, o narrador nos oferece estas duas características: “Is-Bosete estava tirando uma soneca. Entraram na casa como se fossem buscar o trigo” (2 Samuel 4:5-6).


Cabe à imaginação do leitor completar ou preencher as cenas. A ele, a precisão histórica não é exigida, até mesmo porque ela não está escrita. Não é necessário reconhecer o tecido original do cobertor, nem as espécies agronômicas do trigo e nem a configuração exata da caneta. Mas há sim, a necessidade de ter alguma experiência com os objetos mencionados.


No caso do lirismo, a imaginação age por simpatia ou empatia. Mesmo que o leitor não esteja em transe por causa de uma morte, nem aprisionado ou banido, ele tenta viver de maneira imaginativa as emoções correspondentes, mesmo sem se render a elas. É o que Rahner chama de “experiência vicária”.


Lembre-se do que acontece com muitos assistindo, no cinema ou na televisão, a uma cena de violência e crueldade (se eles não forem insensíveis): Sentem uma inquietação como se fosse real, boca seca, olhos fechados... Nesses casos, você assiste a uma história, mas a participação é bastante lírica.


São Paulo perguntou aos gálatas: “se tornem como eu, pois eu me tornei como vocês” (Gálatas 4:12). A expressão parece familiar para nós, porque ouvimos e, às vezes, a praticamos. Colocar-se no lugar do outro é um ato da imaginação e é fundamental no conhecimento mútuo entre os homens. Não me coloco no lugar de uma pedra ou de um chimpanzé. Com os homens, compartilho uma natureza consciente comum.


Mas a imaginação não é incompatível com a ciência? Quem se atreve hoje a afirmar? As hipóteses são a projeção imaginativa com base em alguns dados, que são submetidos ao controle de verificação em virtude de dados pendentes. Os modelos são projeções da imaginação para explicar organicamente e “metaforicamente” um conjunto de dados definido; e eles estão sujeitos à revisão (Kuhn a chamou de "mudança de paradigma").


Até há algumas décadas atrás, as ciências naturais foram divididas em teórica e prática ou experimental. A ciência teórica projeta hipóteses e propõe explicações que um dia serão submetidas à experimentação. Atualmente, operamos com um fator intermediário: a simulação no computador. Inserem-se os dados preparados no computador e dele, retiram as ordens relevantes para “experimentar”. O dispositivo prossegue “como se” e oferece respostas com um alto ou variável índice de probabilidade. O computador é uma espécie de “imaginação mecânica” (guiada pelo homem). Algo semelhante pode acontecer em nossa ciência, quando usamos a imaginação humana não mecânica e aceitamos o “como se” na explicação. Sem afirmar "é/era assim", dizemos que o texto se comporta "como se"; e isso nos ajuda a entender e explicar. A honestidade exige que não criemos a certeza do "é assim" aquilo que nós entendemos "como se".


Existem casos extremos em que a imaginação cria objetos e novos seres: a esfinge, o centauro, o dragão que cuspiu fogo. Fantásticas, com características tiradas da realidade, são o Beemote e o Leviatã de Jó 41-42 e as fantásticas figuras do Apocalipse.

É preciso colocar a imaginação em prática para capturar esse mundo imaginativo. Mas não confine a imaginação ao gênero do fantástico.

Resumo. Você deve ler com fantasia o que foi escrito com fantasia. A imaginação é um órgão extraordinário e necessário de compreensão e interpretação, sem confundi-lo com o gênero do fantástico.


*Luis Alonso Schökel foi um hebraísta espanhol especialista em poesia bíblica.

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