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MUSASHI E O JARDINEIRO: A GRANDIOSIDADE DAS PEQUENAS COISAS

Miyamoto Musashi foi o maior guerreiro de seu tempo. Com saltos de metros de altura e golpes indefensáveis, superou todos os grandes mestres de seu tempo. Aos preparativos para um grande desafio, recebe um punhado de flores de peônia, com caules compridos demais para colocar em seu vaso. Assim, resolve cortar ainda mais o caule das flores com um preciso e rápido golpe de katana. Ao observar a sobra de caule deixada no chão, percebe que mesmo com anos de treino, era incapaz de repetir o mesmo corte que o misterioso jardineiro havia deixado na flor.



“O corte original não fora obra de uma tesoura ou de uma adaga, pelo aspecto. Musashi percebia a ação de uma espada de respeitável qualidade na minúscula marca deixada no macio caule da peônia. Além disso, percebia que a marca não fora produzida por um golpe simples: ali brilhava a magistral habilidade da pessoa que cortara o galho. Musashi havia tentado imitar usando a própria espada mas, comparando os dois cortes cuidadosamente, notava diferenças. Nada de concreto que pudesse apontar mas sentia, com honestidade, algo bem inferior no seu, o mesmo tipo de diferença que poderia notar nas marcas deixadas por uma goiva em diferentes imagens de Buda, uma esculpida por um artista vulgar, e outra por um mestre escultor. “Se um simples jardineiro do castelo é capaz de um corte como este, a potencialidade real do clã Yagyu talvez seja muito superior ao que se diz por aí”, pensou. Seguindo essa linha de raciocínio, chegou à conclusão de que se superestimava. Sentiu-se humilde por um momento, mas logo superou esse sentimento com outro raciocínio:

- Não pode haver melhor adversário. Se eu for derrotado, resta-me apenas tombar a seus pés. Mas temer o quê, se estou pronto até a dar a minha vida…”


Essa situação muito me lembra aquela em que um sapateiro cristão, em dúvida quanto ao seu chamado, perguntou a Martinho Lutero o que fazer. Para surpresa do simples sapateiro, ouviu a seguinte resposta: “Faça bons sapatos, venda-os por preço justo e servirá a Deus e será um cristão melhor”. Lutero poderia muito bem ter dito ao sapateiro: “largue tudo e seja o maior teólogo de todos os tempos”, bem como atores de Hollywood fazem ao ganhar o Oscar, dizendo: “nunca desista dos seus sonhos e seja um grande ator como eu”. Lutero não enxergava o “sucesso” perante a homens, mas perante a Deus, pois “aquele que entre vocês for o menor, este será o maior” (Lc 9. 48).


Frequentemente somos tentados a valorizar os grandes feitos, entendendo que grandes feitos são reconhecidos por muitas pessoas. E quando grandes feitos são reconhecidos por poucos? Quantas pessoas seriam capazes de notar a incrível precisão no corte do caule? A falta de reconhecimento muitas vezes nos desestimula à dedicação, mas esse não foi o caso do nobre jardineiro.


Uma pergunta que pode surgir em nossa cabeça é: “O que faz alguém se dedicar tanto em uma arte que nos parece ser tão inútil?”. Parece que o jardineiro pouco se importa com a utilidade da arte em si. A arte do jardineiro é um fim, e não um meio. Ela não demonstra uma motivação maior, mas, ao mesmo tempo, revela o cuidado que ele tem com um elemento simples, porém belo, da natureza. Ao dar o melhor de si, o jardineiro, em um simples caule, fala sobre si mesmo. Ali ele revela toda a sua nobreza.


A semelhança entre Musashi e o jardineiro é clara: ambos são os melhores naquilo que fazem, ao ponto do “maior” ficar impressionado e admirado pelo trabalho do “menor”. Existe dignidade e grandeza na simplicidade.

É interessante destacar também que Musashi soube admirar a arte presente no corte do caule. Pessoas medíocres preferem rebaixar o outro do que superá-lo. É por isso que pessoas de fato talentosas atraem, entre os semelhantes, mais inveja do que admiração. E ao demonstrar humildade, Musashi não deixou de ser um nobre guerreiro, pelo contrário, ao fazer isso ele se enobreceu ainda mais. Jesus ao lavar os pés dos discípulos não se tornou menos mestre, mas mostrou que é um mestre humilde. A humildade não é uma vergonha, é uma virtude demasiadamente divulgada e demasiadamente impraticada. Ela é lembrada e esquecida ao mesmo tempo.


Vivemos uma geração sonhadora. Os jovens querem ser “Musashis” e poucos querem ser como o jardineiro. Em um vídeo do canal do Youtube PragerU, intitulado “Don’t Follow Your Passion”, o apresentador Mike Rowe profere uma frase chave: “Não siga sua paixão, mas leve-a por onde for”. Você pode amar filmes com espadas, mas é improvável que seja um novo Miyamoto Musashi. Não desanime e seja o melhor professor, artista, faxineiro, cozinheiro, secretário, dentista, médico etc… que puder. Seja simples, mas nunca medíocre.


Por mediocridade entendo como contentar-se com o médio, havendo condições de fazer melhor. Um rico empresário pode ser medíocre ao contentar-se com um trabalho feito com pouco esmero, e um simples sapateiro pode ser nobre ao, mesmo em sua vida simples, buscar fazer um sapato melhor a cada dia.


Ao deparar-se com uma profissão que lhe traz insatisfação, pensando em como poderia ter seguido seus sonhos e se tornado um guitarrista famoso, lembre-se: seja o melhor profissional que puder, e isso glorificará a Deus, com ou sem o reconhecimento dos homens. Imagine um mundo onde os cristãos sejam identificados como “os melhores funcionários”? Imagine patrões confessando: “quem me dera ter mais funcionários cristãos”? Você, assim como o jardineiro do livro, pode ter a sorte de ter seu trabalho avaliado por um grande entre os homens, mas não desanime se isso não acontecer: o maior de todos, aquele que criou os céus e a terra, vê aquilo que você faz. Quem é Musashi, o grande guerreiro, perante o Senhor dos Exércitos?


Seja o melhor que puder naquilo que faz e não se preocupe em ser admirado por todos. Lembre-se da frase do filósofo:


“A coisa mais extraordinária do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns” CHESTERTON, Gilbert Keith.

Bibliografia:

YOSHIKAWA, Eiji. Musashi (Vol. 1). 1ª Ed. São Paulo: Estação Liberdade, 1999.


Por Júlio Pardo

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