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IGOR - OU O DIA EM QUE ME TORNEI SENHORA

Atualizado: 31 de Jan de 2018

A experiência da consciência em um episódio banal. E triste.

Por Simone Teider Bragantin*

Eu não sabia o que esperar e nem ao certo porque havia tomado aquela decisão. Sabia que precisava ir. Uma mão esmagava com força meu coração, e eu não conseguia sentir muita coisa. Apenas a inércia do necessário e do obrigatório me levariam ao destino final. Não que eu não desejasse chegar lá, já havia desejado e voltaria a desejar, mas a névoa do medo que caminhava cruelmente sob a pele havia chegado ao coração e imobilizado os sentimentos. Por vezes, chego a pensar que consigo ser quente, que queimarei como o sol e irradiarei luz e calor por onde passar, exaltando a minha existência ao mais elevado grau de importância. Todo o corpo se modifica fazendo referência a tal pensamento, como uma bailarina que dança a glória que se deve ao coreógrafo.


A voz que me chamou era a mesma que me acalmava. Misericordiosamente dizia “vai”, e me dava forças para vestir um esconderijo de mim mesma. Lá dentro era seguro e conveniente para a situação e, sinceramente, também para mim. Um corpo sem forma e invisível se espremia dentro de seu esconderijo, tentando diminuir de tamanho. Ou seria para expulsar aquela inconveniente névoa?


Naquele momento, definitivamente não era calor que emanava do meu corpo, mas um morno sem graça comparável somente ao desagradável tédio de duas equações matemáticas com o mesmo resultado final. Talvez fosse melhor o frio absoluto? Os extremos tendem a ser mais divertidos? Não penso que divertido se assemelhe a tal condição. Nesse caso, seria algo comparado a estarrecedor. Quando chega o frio absoluto, a bailarina não dança a glória do coreógrafo, ela tenta destruir o espetáculo. Por onde ir, se mal consigo compreender o que me impede de sentir calor?


No meio do caminho, a névoa que caminhava sob a pele virou breu absoluto. A mão que esmagava meu coração apertava mais forte e me puxava para frente, em direção ao destino final. Que luta pode ser essa, de querer ir e não querer estar ali, com força mais que brutal? Meu estômago contorcia-se e gritava em dialeto próprio. Foi a forma que aprendeu a pedir ajuda quando eu não o faço.


Quando outra mão se aproximou, percebi que a que esmagava meu coração era a minha própria. Essa mão quente e familiar que se aproximou pesou forte sobre a minha e a tirou do meu coração, permitindo que ele voltasse a bater rapidamente, levando calor para todo meu corpo.


Assim que me dei conta que havia saído do breu absoluto, eu me percebi mergulhada em um mar cinzento de silêncio, como se estivesse desbravando um oceano onde o sol nunca tocou seus dedos luminosos. Borrões amarronzados sem forma e sem rosto transitavam sem rumo. Demorei a perceber que eram pessoas, ou deveriam ser.

Procurei um rosto, uma ponte, um laço, qualquer sinal que se parecesse com o que conheci por humano ou que me fizesse lembrar de algo que gostava na infância; ou alguém que amei. Não encontrei. Nenhum calor, apenas frio e silêncio. Borrões sem forma e sem rostos transitavam sem parar, como se a vida ainda não houvesse chegado ali ou eu não a alcançasse. Não sei se era eu que não os via ou se eu havia sido muito bem sucedida no meu esconderijo e tornara-me invisível. Não pude deixar de pensar no grande erro cometido ao decidir mergulhar naquele oceano. De que adiantava a presença de alguém que mal sabe nadar? Eu nem gosto de cinza. Pedi à voz que me levasse embora, e à mão que me levasse à tona.


— Senhora! — uma voz suave e imatura ecoou naquele oceano gigante.


Voz branda como quem ri da vida e áspera como quem chora a morte, sem entender ao certo porque os faz, mas assim os faz, meio que por instinto. Sorri tocando sua dor cor de escarlate e seus sonhos sabor chiclete. Senti na garganta um nó tão apertado que poderia deixar gotas de mim naquele mar de tristezas cinzas. Porém, mais rápido que as gotas pudessem se formar, o calor desfez o nó. Já não havia névoa sob a pele, apenas uma brisa leve que misturava-se ao calor que insistia em brotar.


Aprendi a nadar porque o calor sobrevive em meio às águas geladas e à névoas insistentes. Já não me engano, a bailarina move-se conforme a dança do coreógrafo, no ritmo da mão que conduz a música e encerra o espetáculo.


No meio da voz imatura e do borrão sem forma nasceram olhos desconfiados que mal se abriam, como se quisessem esconder a alma e mostrar a máscara, uma boca que se repuxava quando sorria em forma de deboche e dor. Olhos que fitavam feito fio de espada e pediam calor. Um som inebriante irrompeu as águas, num pulsar contínuo que se perpetua em minha memória. Um coração batendo forte. Igor.



*Simone Teider Bragantin é cocriadora da Culturae Compendium, juntamente com seu marido Thiago Bragantin. Em sua carreira artística já trabalhou em produções cinematográficas diversas e sua paixão pela escrita, que começou pelo roteiro, vem expandindo-se a outros gêneros textuais.


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