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ENCONTRANDO NOSSA IDENTIDADE EM CRISTO



Uma das minhas preces puritanas favoritas do The Valley of Vision diz:


Ajude-me a te honrar, crendo antes de sentir,

Pois grande é o meu pecado se minha fé estiver no que eu sentir.


Pode ser bastante tentador definir a fé como um sentimento e ainda mais tentador definir a nossa identidade com sentimentos. Os sentimentos são palpáveis, pulsam dentro de nós todos os dias, bombeando sangue através das artérias da nossa vida. Eles parecem tão naturais como os nossos próprios batimentos cardíacos, e é aí que o perigo mora.


Os sentimentos são parte das bênçãos que desfrutamos como criação de Deus, e podem servir para propósitos saudáveis. Quando vejo meu filho de dez meses com um sorriso de orelha a orelha sinto felicidade, satisfação e alegria. Mas os sentimentos também podem ser perigosos quando se tornam a base de como vivemos ou quando os deixamos definir quem somos. Os sentimentos não são fundamentais; não nos apoiamos neles. Em vez disso, eles são complementares das verdades sólidas da Palavra de Deus, e por uma boa razão.


Todos sabemos como os sentimentos podem ser inconstantes. Um dia, sentimo-nos confiantes em nós mesmos, em nossas habilidades, em nossa identidade e em nossos propósitos. Como as águias, parece que nós planamos nos bolsões de ar das nossas boas experiências. Sentimos uma luz, algo muito mais forte do que nós mesmos. No dia seguinte, os bolsões desapareceram, as dificuldades pesam sobre nossas asas e parece ser um tormento passar o dia.


Claro, existem outros sentimentos que duram muito mais do que apenas um momento. Alguns sentimentos nos seguem por dias, meses ou mesmo anos. Eles se hospedam em nossa rotina diária. Talvez nem possamos lembrar de um momento em que eles não estavam lá. Estiveram conosco por tanto tempo que parecem definir quem somos, não os rotulamos como sentimentos, já os chamamos de "tendências, hábitos, qualidades ou parte da minha personalidade". E se não tomarmos cuidado, podemos deixar que eles governem nossa identidade.


Considere sentimentos de ansiedade. Você já ouviu alguém dizer: "Ela é apenas uma pessoa nervosa, ela é assim"? Como podemos reconciliar isso com as palavras de conforto de Jesus no evangelho de Mateus? “Não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal” (Mateus 6.34). Ou as palavras de Paulo em Filipenses 4.6, “Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus”? A Palavra de Deus parece sugerir que a ansiedade não é parte de quem somos. Por mais que possa nos caracterizar, não nos define e nem nos identifica.


Deus é o Senhor da nossa identidade. Ele nos chama a nos firmarmos na rocha de Cristo ao dizermos quem somos. Portanto, mesmo com todas singularidades e particularidades, somos encontrados no Filho de Deus ou nos perdemos distante dele. Somos livres em sua graça ou presos às experiências e sentimentos de um mundo caído. Espero que o conteúdo a seguir possa encorajá-lo a ver sua identidade liberta em Cristo, dentro de uma cultura onde sentimentos e experiências definem a identidade.


  • Essência precede existência


Eu trabalho com estudantes de pós-graduação ajudando a melhorar sua escrita. Recentemente, um desses alunos introduziu uma ideia que captou o cerne da questão da identidade. A ideia veio de uma história que ele leu sobre um pastor britânico, Vaughan Roberts. Roberts discutia abertamente sua vida; uma longa luta contra atração por pessoas do mesmo sexo. Ele sempre se manteve firme na verdade de que a nossa essência (criaturas feitas à imagem de Deus) precede a nossa existência e sobre as escolhas que fazemos e os sentimentos que temos. O estudante escreveu que uma das maiores ameaças a nossa liberdade humana é a suposição de que a existência precede à essência. Simples abstração, eu sei, mas vale apenas tentarmos entender.


A mentira defendida pela cultura contemporânea é que nossa existência (as coisas que fazemos, as experiências que temos, nossos pensamentos e sentimentos) definem quem somos, são a nossa essência. No caso de Vaughan Roberts, tal filosofia sugeriria que, porque ele experimentar a atração pelo o mesmo sexo, ele é homossexual. Suas experiências, pensamentos e sentimentos são vistos como definitivos. Todas elas apontam para essa característica de identificação que indica sua essência.


Em contraste a isso, a visão bíblica afirma que a essência precede a existência. Quem somos determina o que fazemos, pensamos e sentimos. Esta posição é reconhecida, surpreendentemente, pelo próprio Roberts. Em uma entrevista, ele afirma ousadamente:


"Nossa identidade como cristãos decorre do nosso relacionamento com Cristo. Todos nós somos pecadores e pecadores sexuais. Mas, se nos dirigimos a Cristo, somos novas criaturas, redimidas da escravidão do pecado por meio da nossa união com Cristo na sua morte, e criado com ele pelo Espírito para uma nova vida de santidade, enquanto aguardamos um futuro glorioso com ele. São estas realidades incríveis que me definem e me dirigem para o tipo de vida que eu deveria viver."


As palavras de Roberts dão a ideia de que existem apenas duas identidades essenciais para os seres humanos: em Cristo ou fora de Cristo. Isso, é claro, parece uma piada para o mundo a nossa volta. “Apenas duas identidades para 7,2 bilhões de pessoas? Você deve estar brincando”. As crenças populares do século XXI “superaram” esse pensamento. Então, as pessoas hoje podem dizer algo como: “Somos indivíduos únicos, e devemos ser livres da armadilha que a religião nos armou. Somos (essência) o que fazemos (existência), ou seja, somos quem quisermos ser. Não existe fim para as possibilidades, nossa identidade está crescendo e evoluindo”.


Apesar do apelo libertador dessa visão, de acordo com a Escritura, a liberdade é exatamente o oposto. Isso é simplesmente uma grande mentira. Na Bíblia, somos claramente ensinados que nossa essência precede nossa existência. Quem você é está definindo o que você faz.


Pense na história da criação. Deus nos criou à sua imagem e, como nosso Criador, definiu nossa essência. Somos criaturas em relação a ele. Mas, em Adão, nos rebelamos acreditando na mentira de que o que fazemos nos torna quem somos. Se Adão e Eva comessem o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (um ato de sua existência), eles seriam como Deus (essência). Depois do ato, eles foram dolorosamente lembrados de sua essência de criaturas, em relação com Deus. Tudo o que podiam fazer era esperar na promessa de que o descendente de Adão esmagaria a cabeça da serpente que o enganou traiçoeiramente.


Então, Adão e Eva eram criaturas em relação com Deus. Essa era sua essência, sua identidade. Antes de Adão conhecer o aroma de sua flor favorita, ele era uma criatura criada por Deus e vivia em relação com ele. Sua identidade foi estabelecida e sustentada pelo Senhor de todas as coisas. Era sobre a identidade de aliança entre criatura e Deus que Adão e Eva deveriam ter construído sua existência única.


Desde então, cada geração se rebelou contra essa identidade de aliança. Em vez disso, acreditamos na mentira de que nossa identidade é construída por meio de experiências, e que podemos mudar quem Deus nos fez ser. Ao tentarmos isso, somos presos pelas circunstâncias e pelas brutas correntes de nossos próprios desejos e pensamentos. Pior, não estamos apenas presos a eventos imprevisíveis e sentimentos vagos, mas sem identidade sólida não há nada constante, nada firme na vida. Em vez de ser livre, quando tentamos “nos encontrar”, estamos à deriva. Isto não é um quadro liberdade, mas de solidão, desorientação, não ter um caminho a seguir.


As pessoas assumem erroneamente que a identidade da aliança coloca restrições sobre a individualidade, quanto que o verdadeiro é o contrário. Sua singularidade não é roubada de você, ao contrário, a sua identidade da aliança permite que você a construa sobre algo seguro, eterno e sólido. Sua identidade é construída sobre Cristo (a rocha) ou se não, é construída sobre as instáveis areias (Mateus 7.24-27). E embora o fundamento de todos os que estão em Cristo seja o mesmo, a casa sobre ele pode ter variedades infinitas.


Um livro que faz parte do ritual noturno de meu filho é “Na noite em que você nasceu”. Na escuridão do seu quarto, enquanto eu vou lendo as linhas para ele, sempre me impressiono com uma que diz: “Nunca houve ninguém como você no mundo”. Parece sentimental, mas não é. É um incentivo tanto para mim quanto (espero) será para ele. Deus não criou ninguém como meu filho; ele é único, com suas peculiaridades, sonhos, pensamentos e paixões. E nada, nem mesmo a própria morte, pode tirar isso dele.


Antes da queda, a identidade de Adão era fundamentada em seu relacionamento com Deus. Quando o pecado manchou essa identidade, Deus enviou seu próprio Filho para nos restaurar, e nos transformar em quem realmente devemos ser. Cristo é agora o firme fundamento de nossa identidade. Então, ao ler o livro do meu filho, eu sei que, se ele crescer e se desenvolver verdadeiramente, ele deve descansar sobre sua relação com Deus em Cristo. E nessa rocha, ele pode construir a casa de sua identidade, e lá ela vai permanecer de pé.


No fundamento da nossa identidade, somos livres para crescer e desenvolver nossos dons particulares, refletindo a infinita criatividade de Deus. No entanto, nunca devemos esquecer: não só somos construídos sobre a Palavra de Deus, mas estamos sendo conformes à imagem dessa Palavra (Romanos 8.29). Nessa imagem (o servo sofredor, o humilde rei, o amante de Deus) é onde encontramos nossa maior liberdade e identidade. Somos identificados e livres não rejeitando a Deus, mas abraçando-o.


  • Verdadeira liberdade


A liberdade que temos em Cristo é o que nos leva a crescer e desenvolver com confiança nossa individualidade. Isso acrescenta uma profundidade à nossa compreensão de Gálatas 5.1: “Para a liberdade que Cristo nos libertou”. Que liberdade é essa que Paulo fala?


No contexto da carta, Paulo estava se dirigindo à tendência de seus ouvintes de buscarem sua identidade no lugar errado. Embora fossem cristãos, eles ainda dependiam da lei judaica. Eles procuraram definir sua identidade por meio das obras, no que fizeram ou não fizeram (existência). Eles tinham esquecido que a sua identidade (essência) já estava estabelecida por Deus.


O que eles fizeram (existência) foi com o propósito de construir quem eles eram (essência), e não o contrário. Os ouvintes de Paulo eram filhos de Deus, filhos da promessa, portanto, livres para viver de uma maneira que confirmasse isso. O que eles fazem dia após dia pode refletir a disposição da alma em um momento, mas não definiu quem eles eram (e são). Somente Cristo possui essa autoridade.


A liberdade em que Paulo fala em Gálatas não é apenas liberdade do julgamento da lei, é a liberdade de encontrar identidade na lei. Sua identidade foi encontrada na graça, não nas obras, pois até mesmo a concessão da lei no Antigo Testamento era um ato de graça.


Certamente, a lei separou os judeus, tornando-os únicos e santos como povo de Deus. Mas não podemos confundir a identidade individual com a identidade. A prática da lei era para complementar e confirmar a fidelidade do pacto dentro do coração do povo, não deve ser obedecida para o reconhecimento de outras pessoas. Isso é uma verdade importante pela qual Cristo deu sua vida: somos identificados apenas na graça de Deus, em nossa união com Cristo, não em nossas ações e sentimentos.


Cristo, como clímax da graça de Deus, é a pedra sobre a qual construímos a nossa individualidade. Podemos nos aliviar sabendo que nossa identidade não está sujeita às nossas ações, nossos pensamentos ou nossos sentimentos (que mudam como o vento); nossa identidade é incontestadamente enraizada em uma pessoa eterna, que nos dá a liberdade de crescer em relação direta com Deus.


Mantendo a importância dessa relação, Vaughn Roberts se identificou com Cristo, em vez de com sua experiência. Nós admiramos Roberts por isso, porque sabemos que esta não é uma estrada fácil de caminhar. Cada um de nós, de uma forma ou de outra, luta para perceber ou lembrar que nossa identidade está em Cristo para então lutar para viver essa identidade. Então, vamos aproveitar este momento para nos lembrar de quem realmente somos, tanto em nossas boas experiências quanto nas más, quando nos sentimos aflitos e quando nos sentimos inspirados.


Você luta contra a atração por pessoas do mesmo sexo? Você é um homem ou uma mulher em Cristo. Você pensa constantemente quando poderá desfrutar a sua próxima bebida? Você é um homem ou uma mulher em Cristo. Você congela de nervosismo quando é convidado a fazer alguma coisa fora da rotina ou quando as coisas não acontecem conforme o planejado? Respire. Você é um homem ou uma mulher em Cristo. Você torce para o dia passar rápido porque se sente emocionalmente desanimado? Você também é um homem ou uma mulher em Cristo.

Da mesma forma, nossas boas experiências não determinam nossa identidade. Você está apaixonado por sua esposa e encontra nela a riqueza da graça de Deus? Você está animado por seguir o chamado de Deus? Outros estão tratando você como um modelo paternal a ser seguido? Você ainda é um homem ou uma mulher em Cristo.


Cada um de nós que colocou a esperança, confiança e amor somente em Jesus está em Cristo. Nenhum sentimento ou circunstância pode mudar isso. Sobre Ele como nossa rocha podemos construir nossa casa, e no meio das ondas e das marés da vida de sentimentos e experiências, ela resistirá.


Publicado no JOURNAL OF BIBLICAL COUNSELING

Escrito por PIERCE TAYLOR HIBBS, Westminster Theological Seminary

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