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AURORA E VIOLETA

Atualizado: 31 de Jan de 2018

Um triângulo vai além do amor, por vezes nem o tangencia. Mas o perdão, esse é sempre necessário.

*Por Simone Teider Bragantin

Wedded (1882) Frederic, Lord Leighton (Art Gallery of New South Wales, Sydney, Australia)

Quando Aurora entrou para o Clube do Livro, não imaginava o que lhe estava a esperar. Era o enfadado inverno de 1980 e acabara de chegar a cidade de Lucenda para estudar e recomeçar a vida após trágicos acontecimentos amorosos.

Aurora e os 20 e poucos anos que lhe pesam na consciência, e um pouquinho sob os olhos, entram timidamente no salão com uma dúzia de semi-intelectuais que conversam com ares de grande sabedoria enquanto segura uma cópia do temido “Cem anos de solidão”, o qual comprara por uma pechincha em um sebo do centro da cidade, e não conseguira terminar de ler. Procura familiarizar-se com a situação já que nunca fora boa em interações sociais e muito menos uma grande intelectual, mas o aspecto sujo do livro dá um ar de cultura adquirida após muitas horas de concentração e viradas de páginas, e isso a infla de alguma segurança. Em sua introversão costumeira, sente paz.


Recebida com a formalidade e polidez que se é esperada de um grupo como tal, Aurora autoriza seus olhos a caminharem pelos possíveis amigos que ali se encontram. Porém, o resultado de vulgar desatenção coloca o calcanhar de Aquiles de Aurora à mostra. O coração desembestado e pueril prega-lhe uma de suas conhecidas peças e seu olhar fixa-se em um rapaz com os olhos de tanzanita. Azuis do mais profundo e inavegável dos mares. Ian azuladamente entretém uma enigmática mulher que, também com seus 20 e poucos anos pesando sobre o cenho, parece há muito desejar nadar por aquelas águas.


Aurora, preocupada com o alvoroço repentino que acontece no seu coração, começa a tomar as devidas providências para reverter o processo dessa habitual travessura a que esse pequeno sagaz tão fortemente lhe compele, e da qual conhece as consequências. Respira profundamente, fecha os olhos, prende a respiração, mentaliza cores que desviem do atordoante azul. Verde, vermelho, marrom, amarelo. Não é a hora, nem o tempo, quem dirá o espaço mas seu corpo já comunica a avaria que se sucedeu.

Violeta, a candidata a nadadora, percebe a declaração não intencionada que saem dos olhos da recém-chegada e se coloca a postos, como leoa que vê sua caça sendo rondada por outros predadores quando a pobre futura carcaça ainda bebe água tranquilamente na lagoa. Mulher tem dessas intuições insuportáveis.


Arma-se aí o inesperado. Mas o que podia fazer Aurora se o amor chegou assim, como uma ressaca azul que arrebata sem deixar espaço para decisões? Seria assim o amor? Resistiria com armas brancas, sem lutas e sem malcriações. Violeta haveria de entender o que quer se sucedesse e quem sabe não estaria escrita uma grande amizade nesta trama bem alinhavada. Não há guerra no amor.


Violeta molesta-se com a intrusa em seu esquema. Tudo corria conforme o planejado e Ian parecia aprazer-se de seus encantos até Aurora aparecer, desviando o curso da corrente. Vinda de outra escola de pensamento, Violeta acredita em lutar pelos seus bens (ou pelos que deseja possuir), como uma dama escondida por detrás de um sorriso atoalhado passa a valer-se de maiores quantidades de maquiagem e perfume. Trava-se a batalha, pois diz-se que vale tudo no amor e na guerra.


Ian, por sua vez, jacta-se como pavão. Encanta-se com a beleza leve e velada de Aurora, que feminina emana perfume de flores de cerejeira e esconde seu delicado corpo em meio a graciosos vestidos que lembram o calor queimando uma tarde no parque, mesmo em meio ao mais dilacerante inverno.


Ele escreve-lhe um bilhete no dia de “Guerra e paz”, dá-lhe bombons no encontro de “Dom Quixote” e uma rosa ressecada entre folhas de caderno na reunião em que discutem a degenerada “Lolita”. Aurora e seu coração destemido recebem sinais de que tudo progride às maravilhas e logo escolherão porcelanas. Pode ouvir os sinos.

Porém ainda há Violeta, que com seu modo passivo e obscuro de ser, tem uma beleza que corre por aí, soltando-se de pouco em pouco entre os dentes brancos, as mãos que acariciam os cabelos e os sorrisos repuxados. A moça confunde o pobre Ian e o faz pensar que decidir é realmente uma grande decisão e não lhe cabe apressar as coisas.

Cansada de tantas delongas, até mesmo o coração acriançado de Aurora começa a inquietar-se e sua doçura conhecida começa uma ávida investigação entre os integrantes do esmerado clube, apenas para saber a terrível notícia que o inescrupuloso Ian guarnecia o coração de Violeta da mesma atenção e carinho irresponsáveis com as quais supria seu pobre coração.


Presenteou-a com um poema no dia em que discutiram “Madame Bovary”, um laço de cabelo ao se esbaldarem nas desventuras de “O Grande Gatsby” e uma caixinha de caramelos na sofrida reunião de “Persuasão”. Agora fazia-lhe sentido o motivo pelo qual Violeta havia aparecido com tanta pintura em seu rosto gélido e desbotado. Claramente estava segura da vitória.


Sentindo uma dor excruciante no peito e um tanto cansada da inevitável guerra que entrara e agora subitamente decidira deixar, catou os pedaços do coração na mão, ainda furiosa com ele por ser assim tão imaturo e impulsivo, retira-se para recompor-se.

Aurora não vai à reunião seguinte, para a qual Ian preparara um poema para Aurora e comprara bombons para Violeta. Discutiriam “Mulheres Apaixonadas”. Violeta enrubesce de alegria quando dá por conta que sua rival não está ali. O caminho está livre para conquistar seu muito amado Ian, que estranha a falta da amiga especial, mas guarda o poema para situação oportuna.


Para Aurora, são tantos e cruéis os dias para o venturoso perdão eclodir pelos poros, porém, como um príncipe a cavalo ele chega. Chega na forma da inferência que confere a Ian e Violeta o título de inocentes na causa do coração sofredor. Perdoa a si mesma pela entrega infantil e o descaso consigo mesma. Acreditara no que acreditara. Enganoso é o coração, que só vê o que deseja e cega os olhos da razão.


Passam-se “Eneida”, “Robinson Crusoé”, “Os Miseráveis”, “Mrs. Dalloway”, “A Sangue Frio”, “O Velho e o Mar”, “As Ondas”, “O Processo” e “A Hora da Estrela”. Aurora nunca mais aparece, e por mais esforços, encantos, maquiagem e perfumes que Violeta dedica, Ian nunca vem a tomar sua decisão. Violeta percebe demasiado tarde que Aurora nunca fora sua rival.

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Tempos depois, caminhando pelas ruas de Lucenda, em direção ao clube do livro, Violeta avista Aurora. Debaixo de uma árvore, ela e um rapaz desconhecido, de riso fácil e gestos mélicos, pintam suas telas, lado a lado, em meio a pincéis e tintas coloridas.

Sem deixar-se perceber, Violeta aproxima-se para saber de que trata-se tanta graça transparecendo da antiga companheira de clube, que deixara os livros tão subitamente e sem explicações. Existe um clube de pintura, reúnem-se toda semana.


O desconhecido esboça algo odiosamente irreconhecível enquanto Aurora atenta-se as flores. Os desenhos são espantosamente feios, porém eles não parecem importar-se. Ambos gargalham inebriantemente enquanto Violeta segue caminho a pensar.

Ao passar por uma lixeira, sem pestanejar desfaz-se de sua cópia de “Reparação” e entra no armazém da rua principal, onde compra pincéis, telas, tintas e artigos de pintura. Bem o faz Violeta, em quem jaz uma exímia artista. Ainda não o sabe, mas pintará o quadro do dia das bodas de Aurora e João.



*Simone Teider Bragantin é cocriadora da Culturae Compendium, juntamente com seu marido Thiago Bragantin. Em sua carreira artística já trabalhou em produções cinematográficas diversas e sua paixão pela escrita, que começou pelo roteiro, vem expandindo-se a outros gêneros textuais.


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