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ARTE, CINEMA E FRUSTRAÇÃO

Atualizado: 10 de Abr de 2018

*Por Simone Teider Bragantin

Sempre que pude, guardei recordações. O problema disso é que chega uma hora que, a não ser que você viva em uma mansão, as recordações começam a não caber mais.

Desde os vinte anos, trabalhei com cinema e esse foi o maior sonho ao qual eu me dediquei. Por isso, cada pequena prova da minha caminhada por essa arte eu guardava, quase como um troféu. Em cada produção em que participava, guardava a ordem do dia – que não passa de um documento chato; o roteiro todo rabiscado; as notas fiscais que eu perdia sem querer - achei uma agora, verdade; o fechamento do orçamento; os orçamentos fantasmas - entendedores entenderão; inclusive, sabia de cor o número de telefone de todo mundo, RG e CPF (alguns ainda sei).


Eu me lembro até hoje do meu primeiro longa-metragem. Trabalhava 16 horas por dia por cinquenta reais e uma caixa de bombom (era Nestlé), e isso pelo filme inteiro, que durou umas quatro semanas. Virava a noite tão feliz vendo os atores fazerem e refazerem as cenas entre aqueles montes de refletores (vulgo, luzes). Quando o assistente de direção (uma pessoa com certo status e por isso, em geral, bem chata) pedia silêncio, eu parava de respirar e não me mexia, com medo de pisar numa folha seca e fazer barulho. Não sei porque estou contando tudo isso.


Acho que é porque há tanto tempo venho pensando em falar sobre essa grande frustração e luta da minha vida. Ou mais, falar mesmo sobre frustração e o quanto ela é odiada. Com o passar do tempo passei a vê-la como feia, humilhante e, ao mesmo tempo, maravilhosa. Ninguém, só eu e Deus, sabíamos o quanto eu quis dedicar minha vida ao cinema, ao clichê “amor à arte”. Porém, por tempo demais, só Ele sabia a real motivação do meu coração. Fama, dinheiro, amor, status?


A tentativa no cinema durou quase 10 anos. Dez anos de muito trabalho, viagens, amigos, festas, festivais, três tabelas (umas caixinhas com uns buraquinhos que servem para tudo), butterflies, diretores de fotografia demorados... Havia sempre um “behind the scenes” que deixava qualquer roteiro original no chinelo; em geral, no cinema o melhor filme está atrás das câmeras (algo como a vida real). E, claro, o nome no letreiro, que acredito ser o ponto máximo do esforço todo.


Mas voltando às recordações. Acabei de casar, e trouxe comigo toda essa parafernália, livros, cadernos de produção. Ah, os milhões de cadernos de produção, tão preciosos pra mim e, hoje, tão inúteis.


A única coisa que resta do cinema para mim é a saudade, e a frustração.

Eu costumava bater no peito e dizer: “Do cinema, eu nunca saio” (ouço tantos dizerem isso que chega a dar um pouco de dó). E, tentando ajudar, minha mãe dizia, “você mira alto demais. Por que não se contenta com uma vida mais normal?”. Ok, não era bem isso, mas eu traduzi para a realidade do que ela queria dizer. Ah, como isso me revoltava, meu orgulho se remexia nas entranhas.


Dia desses, resolvi arrumar o quartinho da bagunça do apartamento novo, já que está chegando o sofá que compramos e ele não vai caber no meio de tanta bagunça cinematográfica (e dos livros do marido). Entrar em contato com isso me fez lembrar como eu decidi sair do cinema. Eu já havia me tornado cristã (vulgo crente), o que já era um escândalo – e altamente confuso - para grande parte (ou todos) os meus amigos do cinema, os quais ainda amo tanto (acho que hoje, ainda mais!).


Já sofrendo um pouco nesse meio, não arredava o pé. Disse a Deus que seria muito humilhante deixar o meu sonho, que não se completou – também não sei dizer o que isso significava. Ele apenas confirmou o que já me incomodava há tempos: “Eu tenho outros planos para você”. Foi uma das formas mais efetivas que Deus usou para que eu aprendesse a ser humilhada, obediente, submissa e, o principal, viver em meio a frustrações.


Meus olhos ainda veem o cinema com outros olhos, “no deserto de quem eu fui”. Eu guardo para mim a dor, a certeza de decidir não ser vista, de perder tudo (principalmente eu mesma) para ganhar a Cristo.


Onde eu falo que trabalhei com cinema as pessoas ficam encantadas:

- Sério? Que legal, deve ser o máximo, você conhece muitos famosos?

Geralmente, querem minha opinião sobre filmes que nunca vi e vejo o desgosto no rosto deles quando digo que não os assisti. Mal sabem elas que o cinema hoje é só um hobby, um amor que eu tenho que olhar de longe, um fantasma que incomoda mas a gente não dá muita bola, sabe? Tipo os amigos imaginários do John Nash (de Uma Mente Brilhante). Estão sempre lá, mas você nem ousa falar com eles.


Se eu sou frustrada? Sim, eu gostaria de ter sido uma grande roteirista. Sou infeliz? Absolutamente não, tenho tudo que preciso para viver mais que plenamente. Porque “veio Cristo e fez tudo diferente”.


Hoje, não prevejo nem a próxima hora da minha vida (acho que vou ter que fazer almoço), mas meu maior bem, aquele faz suportáveis todas as dores, frustrações, fraquezas e as inúmeras limitações que eu tenho é meu amor, meu tudo, Jesus Cristo. Porque “tudo o que ele oferece, Ele é”*.

*Referência a canção “Ele é”, de Os Arrais.


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