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ALICE DIZ ADEUS

*Reflexão de Thiago Bragantin sobre a obra de Simone Teider


“Uma doce voz” e “um verde azedo” são exemplos de sinestesias.


Sinestesia é misturar os sentidos, confundi-los. Embora a condição holística do ser humano sempre conduza para uma experiência plena quando damos toda (ou nenhuma) atenção à situação, a sinestesia não é muito comum. Você já deve ter percebido que, às vezes, a comida fica mais saborosa ao paladar quando tem um cheiro agradável ou uma boa aparência. Sendo assim, por que não comemos com as mãos?


Algo semelhante acontece nas artes. Por exemplo, eu consigo sentir o gosto do laço de Charlotte com o qual Werther morreu beijando. Mas em se tratando da sétima arte, não são poucos os que conseguem imbricar linguagens. Cenas lentas e silenciosas que lembram quadros ou alguns movimentos de câmeras que remetem à dança. Filmes como “Pina” (Wenders), “A árvore da vida” (Mallick) e “Dogville” (Von Trier) podem levar, facilmente, os espectadores a associar o cinema com dança, poesia e teatro.


Essa mistura de linguagens artísticas também acontece no curta “Alice diz adeus”, escrito e dirigido por Simone Teider. Cinema e poesia se encontram. A referência mais direta é a leitura do poema “Ismália”, de Alphonsus Guimarães, feita pela Alice. Mesmo que o poema componha quase a totalidade das falas do curta, há muito mais que remete à poesia.


A narrativa em ordem inversa, começando pelo desfecho da história, e voltando cena a cena, nos remete à temporalidade dos versos. Enquanto isso, algumas cenas se assemelham às pausas que comumente há entre as estrofes. Embora essa técnica seja usada em filmes como “Amnésia” (Christopher Nolan) e “Irreversível” (Gaspar Noé), o tema deles está bem distante do curta de Simone, no qual até o título soa como poesia.


Embora seja o desfecho imaginável, suicídio não é o tema do nosso curta. Assim como também não o é no romantismo alemão de Werther e no neo-romantismo de Alphonsus Guimarães. A personagem Alice – que, ao final, dorme vestida de branco semelhante a um anjo – sente a solidão e a angústia da alma, que não encontra sentido em si própria. Ela chega ao ponto de preencher a parede com máscaras olhando para sua pobre alma afogada na cama, mas que, ainda assim, deseja, de alguma forma, busca subir aos céus ao encontro com o Pai.


*Thiago Bragantin é o idealizador da página. Amante da literatura e das expressões artísticas. Formado em filosofia, tudo na vida dele tem um significado diferente, ou pelo menos, mais de um significado.


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