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A voz dos poetas - Luiz Alonso Schökel




Ocasionalmente considerei a palavra de algum poeta para ilustrar e compreender melhor algum salmo. Se, como dizia Gunkel, é sobre “compreender a obra literária”, penso que as formulações de outros poetas podem prestar um bom serviço.


A ciência bíblica de orientação histórico-crítica tende a reconhecer apenas o valor, do que vou chamar de “causa eficiente”. Concebe a história literária como uma cadeia ininterrupta de efeitos sucessivos. Para explicar “as causas”, uma obra deve ser conduzida a suas fontes e influencias, livre das adições e elaborações posteriores; com rigor cronológico, as crenças religiosas e as tradições literárias de Israel também entram na cadeia de causas e efeitos.


Conhecer os antepassados e antecedentes de uma obra ajuda a compreende-la e neste ponto a ciência bíblica histórico-critica tem grande mérito. O perigo esta em exagerar em alguns conceitos e cair num reducionismo ou exclusivismo.


A - Reducionismo é dissolver a obra literário em múltiplos e variados canais dispersar suas águas, de modo que no final, a obra desaparece e mancha sua personalidade. Ou, por vontade de voltar a uma suposta forma pura e primitiva, chega a transformar uma grandiosa arvore em um tronco vertical. Pior ainda, quando na ausência de documentos ou testemunhos para determinar as influencias, conjecturam ou inventam os supostos originais. E chega-se a um

impasse insuperável e ter que para em algum elo da cadeia sem conseguir continuar.


B – Exclusivismo é pensar que apenas uma influência de causa eficiente é relevante para explicar o texto. E, como não dá o actio in distans, o afastamento da cultura e do tempo, são eliminadas as explicações.


Mostro os extremos para revelar os perigos. O remédio não será banir o método

histórico-critico, mas abri a outras formas de raciocinar e compreender. Vou colocar na

categoria de “causa exemplar”.


Não falo da categoria metafísica “causa exemplaris” como uma derivação do gênero

“causa efficiens”. Tomo a palavra com um sentido menos rigoroso. Penso em semelhanças e coincidências que ocorrem sem contato ou influencia direta. A margem ou por baixo da cadeia causal do tempo, existem constante, modelos, estruturas estruturantes, formas a priori, arquétipo, universais de linguagem e estilo, etc., que ajudam a entender o texto sem uma relação causal direta. O espírito é capas de superar o espaço e o tempo: o mesmo símbolo pode surgir em culturas independentes. Os mesmos esquemas podem organizar obras sem relações familiares (a grande família humana). Existe uma contemporaneidade que ignora os séculos e uma perspectiva que despreza as distancias. Há visões e concepções que se antecipam, e outras que sobrevivem a sua época; há guardiões que se escondem e reaparecem. O modelo da cadeia sucessiva, e bem falha, é insuficiente para tratar de literatura em geral e em especial a poesia.


Então, a ciência bíblica esta arruinada com o histórico-crítico? Exatamente aí é que

está o erro, em querer reduzir toda a ciência bíblica ao modelo histórico-crítico, quando seria necessário abrir-se a outras formas de pensar, compreender e explicar.


Naturalmente, a alternativa que inscrevo sob o signo de “causa exemplar” é exposta aos mesmos perigos e exageros. Também pode cair num reducionismo: das estruturas puramente formais e abstratas, da libido totalitária, dos esquemas econômicos, dos paralelos etnológicos, etc. E qualquer um dos ramos pode cair num exclusivismo.


Esta digressão hermenêutica veio ao propósito do poetas como interpretes. Voltamos para eles. Por sua sensibilidade humana e por seu dom da palavra, os poetas formam uma grande família e se explicam mutualmente.

Em princípio, pode estar mais perto de um salmo um poeta cristão do século XVI do que um poeta egípcio que não se sabe a dinastia. Também, um poeta, não explicitamente cristão, pode recriar em seus sentimentos e dizeres, sem pretensão de saber, o que fez o velho poeta de Israel.


Por esse motivo, e não por vaidade, sugiro com sobriedade, alguns testemunhos de nossos poetas. Admito que não o faço sistematicamente, e é por isso que a contribuição não é plenamente científica. Um estudo comparativo sistemático teria produzido um livro ou capítulo diferente. Por exemplo, poderia ser intitulado “Os símbolos dos saltérios e os símbolos de Cristo de Velásquez e de Unamuno” (um longo poema todo recheado de linguagem e citações bíblicas). Ou “O anseio por Deus nos salmos de súplicas e em três poetas contemporâneos”. Ou se preferir “poesia social moderna e salmos imprecatórios”. E assim por diante. Teríamos um trabalho de literatura comparada, um ramo científico que pode mostrar seu rigor e caráter sistemático.


Minha tarefa é sistemática em outros aspectos do método, não neste. Então, com

todas as ressalvas necessárias e pelas razões dadas, penso que uns poemas e versos nossos ajudariam compreender outros, distante no tempo e no espaço; e isso é entender. Por hora, apresento algumas provas modestas, inseguro de ter acertado em cada uma delas, esperando que ajudem a compreender. E se a justificação parece muito longa para uma dúzia de textos apontados, sirva-se de uma reflexão hermenêutica e como incentivo para alguns leitores.


*Por Luiz Alonso Schökel


in: Treinta salmos: poesia y oracion. Pg 31-33

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