• Culturae Compendium

A TORMENTA

Atualizado: 6 de Fev de 2018

*Por Thiago Bragantin

Nem sempre a tormenta vem de onde esperamos

Já tinha passado das oito e ele não havia chegado. Se fosse um dia normal, Raquel não se importaria, mas naquela tarde havia chovido. Não como de costume nos dias de outono, em que a única função da chuva é refrescar o ar ou talvez regar as plantas. Naquela tarde, o céu parecia como aqueles que vemos em filmes americanos sobre o fim do mundo. Talvez fosse, para ela.


Raquel prepara o jantar, com a mão na panela e a cabeça em São Caetano do Sul. Era lá que Gustavo trabalhava e ela sabia o que uma pequena chuva poderia fazer naquele lugar. “Será que é o lugar mais baixo de São Paulo, para toda a água da chuva se juntar lá?”, passava em sua cabeça. Para não se preocupar à toa, deixou a TV da sala ligada no noticiário e incrementava o feijão na cozinha, como era comum. Um dia ela preparava o feijão de uma forma bem simples, porém bem cremosa, e no seguinte, a sobra era incrementada com temperos e outros detalhes. Assim, não precisava fazer feijão todos os dias. Na verdade, incrementar dava mais trabalho do que fazer. Porém, ela tinha um certo prazer em dizer ao namorado que havia feito feijão novo quando na verdade, era o de ontem.


Quando percebeu que ele iria demorar mais que o normal, resolveu retardar o processo do preparo do jantar e passar mais tempo trabalhando a fim de não pensar nas possíveis desgraças com Gustavo. “Ele poderia mudar de emprego. Lá é uma boa empresa. Mas não fica em um lugar seguro”, pensava ela, mesmo sabendo que era um pensamento banal e difícil de acontecer.


O incremento do feijão queimava enquanto ela continuava a não ser informada pelo noticiário ou pelo telefone. “E se ele estiver no carro?”, divagou. Como se adiantasse alertar que era melhor o teimoso ficar na empresa do que sair pilotando na rua em dias de chuva. A impaciência tomou conta do seu corpo. Ela desligou o fogo da panela incrementada e foi para a sala, juntou uma cadeira bem perto da TV e ficou mudando os canais. Procurava notícias sobre a enchente, mas na verdade queria mais é que alguém respondesse “onde está o Gustavo?”. Depois de passar por todos os canais três vezes, resolveu voltar para a cozinha e terminar o jantar – até ele impaciente. Antes, porém, foi à janela, abriu, olhou o céu de São Caetano do Sul. Não conseguiu ver nem um sinal de chuva sequer, nem de agora, nem de antes. Porém, o céu é traiçoeiro, de repente, quando menos se espera, a tormenta vem e destrói tudo.


Enfim, preparou a mesa e terminou o incremento. No exato momento em que ia colocar o feijão na mesa Gustavo abriu a porta e disse “boa noite, amor”. Toda a inquietação do rosto de Raquel voltou para dentro, por um atalho que nem ela conhece. “Vem jantar, acabei de fazer o feijão”.


*Thiago Bragantin é o idealizador da página. Amante da literatura e das expressões artísticas. Formado em filosofia, tudo na vida dele tem um significado diferente, ou pelo menos, mais de um significado.


#conto #contocurto #preocupação #atormentada #thiagobragantin #literatura #elucubração

Enasfecc

® 2018 por Culturae Compendium.