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A METAFÍSICA EM VIDAS SECAS

Uma análise para além da obra-prima de Graciliano Ramos


Vidas Secas foi publicado originalmente em 1938 pela editora José Olympio

Silêncio também é música, e todas as pausas da partitura devem ser consideradas. Ausência nunca foi sinal de inexistência. O “não” é uma forma de conhecimento, conhecimento negativo e este também é um caminho para fazer metafísica.


Graciliano Ramos era agnóstico. Ao escrever, sua atenção estava bem distante da metafísica. Como bom comunista, os olhos estavam voltados para o chão e para a realidade árida desta terra. De todos os livros do alagoano, Vidas Secas foi o que mais se destacou, marcando o imaginário brasileiro até os dias de hoje. A criação desse romance começou com a narrativa de Baleia, a cachorra da família. A partir daí o autor construiu todas as personagens e a trajetória dos retirantes.


Eles precisaram fugir da seca. A desventurada família caminha sem olhar para frente, os pontos de referência ficaram para trás. A aridez é a ausência da água, a natureza os expulsou, o próprio Deus os colocou para fora, semelhantemente à narrativa de Adão e Eva sendo expulsos do paraíso. Deixaram a casa e foram trilhar um caminho novo e desconhecido.


Tal caminhada nos remete a outra imagem antiga: o êxodo dos hebreus caminhando pelo deserto, mas na versão tupiniquim. Nesta, Deus não os acompanha, ele está em suspenso, no silêncio. A religião tem algumas aparições no romance e são sempre desagradáveis. Eram cristãos que iam à igreja uma vez ao ano. Apesar de ser a única, era uma visita humilhante e desconfortável, com o único fim de respeitar a tradição, e sofriam com ela.


E se a paz e o paraíso não aparecem, o inferno se faz presente na boca do filho mais velho. Em uma família onde a comunicação é reduzida a grunhidos e roncos, o menino aprende logo a falar o vocábulo “inferno”. Mas leva uns bons cascudos e aprende que o inferno é um lugar ruim, semelhante a onde eles se encontravam. Então vem a pergunta, “um nome tão bonito serviria para designar algo ruim?”. Demônios também atormentavam a cabeça de Fabiano, o pai, mas por causa da ignorância tornava-se imune a este mal, ele apenas se relacionava com animais.


A primeira referência religiosa encontramos na primeira página do livro, após o filho mais velho cansar-se do trajeto de fuga, senta-se e chora. O pai bate nele e grita, “Anda, condenado do diabo” e ainda “Anda, excomungado”.


O romance trata de um mundo excomungado, em que Deus se põem para fora (ou foi o autor quem o colocou aí?). Neste mundo a natureza se rói, se desfaz, perde sua cor e vida. Os humanos perdem sua natureza e se tornam como animais, Fabiano reconhece isso falando ele mesmo, “Você é um bicho”. Na ausência de Deus, não há como o homem descobrir sua identidade. Como poderia o ser humano enxergar em si mesmo a divina imagem e semelhança do seu criador se Deus está ausente?

Vidas Secas não pode ser lido apenas como uma tragédia social, mas também como uma tragédia metafísica. No silêncio do criador, toda a natureza fala.

Escrito por Thiago Bragantin

Leia do mesmo autor: Homem que voa e A criança morta de Portinari


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