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A DEVOÇÃO DE ANDY WARHOL

Por Michael Davis*


Em 1 de abril de 1987, artistas, atores, estilistas, escritores e músicos populares dos Estados Unidos da América dirigiram-se para a Catedral de São Patrício em Nova York. Liza Minnelli apareceu, juntamente com Calvin Klein, Tom Wolfe e George Plimpton. Yoko Ono chegou um pouco mais cedo; ela estava fazendo um discurso. Pode-se facilmente confundir o memorial de Andy Warhol com um evento social e não religioso, se não fosse o elogio feito pelo amigo do artista, John Richardson. Ele falou da “piedade secreta” de Warhol, que “inevitavelmente muda nossa percepção do artista que enganou o mundo fazendo acreditar que suas únicas obsessões eram dinheiro, fama e glamour, e que era moderno ao ponto de ser indiferente. Nunca tome Andy como superficial”. É essa piedade secreta que o Museu do Vaticano espera descobrir na grande exposição de seu trabalho em 2018. Na verdade, a fé católica é o único tema constante em sua estranha vida. Os pais de Warhol nasceram em um vilarejo na fronteira do império austro-húngaro. Eles eram ucranianos: membros de uma pequena igreja católica bizantina que surgiu da missão de Cirilo e Metódio, nas montanhas de Cárpatos. Em 1909, seu pai mudou-se para Pittsburgh, a maior comunidade de ucranianos fora da Europa. A mãe de Warhol acompanhou o marido em 1921, e o filho Andrew nasceu sete anos depois. O pai trabalhou como mineiro de carvão até morrer, quando Warhol tinha 13 anos. Em 1955, a marca de calçado I. Miller contratou Warhol para ilustrar seus anúncios no New York Times. Os críticos compararam os resultados aos cartazes de Toulouse-Lautrec. Os desenhos dos anúncios se tornaram o que a alta cultura definiu como Pop Art. Isso também colocou Warhol no centro da vanguarda de Nova York e seu ateliê (conhecido como “Fábrica”) tornou-se sua sede.

O contraste com a classe trabalhadora de imigrantes católicos de sua juventude não poderia ser mais evidente. Todas as características dos anos 60 estavam lá: drogas, sexo, radicalismo político, mais drogas. Muitos dos superstars de Warhol (artistas “inferiores” que ele promoveu) morreram de overdose ou cometeram suicídio aos vinte ou trinta anos de idade. A religião guardou Warhol de seguir o mesmo caminho. Ele ia à missa quase todos os dias. De vez em quando, ele simplesmente corria para St. Vincent Ferrer na Lexington Avenue, abaixava-se nos bancos do fundo e orava. Ele passou os dias de Ação de Graças, Natal e Páscoa em trabalhos voluntários entregando sopas e fez amizade com os sem-teto e pobres que serviu. Colocou o sobrinho no seminário e, embora abertamente gay, ele se esforçou para permanecer celibatário ao longo da vida. Quando se recusou a apoiar o movimento dos direitos homossexuais, muitos de seus amigos culparam a fé do artista. Morou com sua mãe até morrer e todas as manhãs eles oravam juntos em eslavo, antes de Andy ir para a Fábrica. Ele sempre carregava um rosário e um pequeno livro de orações no bolso. A expressão distante de Warhol proibiu-o de falar sobre sua vida espiritual em profundidade a repórteres e jornalistas, mas Natasha Fraser-Cavassoni, a última funcionária contratada na Fábrica, identificou uma linha conservadora em sua religião. “Ser educado como católico dá uma sensação de ordem hierárquica, disciplina e fé. A fé, quando abraçada, ancora o criativo”, mesmo para “tradicionalistas não convencionais” como Warhol, disse ela à revista Rolling Stone. Então, como o catolicismo ancorou a criatividade desse “tradicionalista não convencional”? Talvez haja traços dele em suas telas de estrelas de Hollywood, que são amplamente aclamadas como “ícones seculares” em uma sociedade que venera fama. A mais popular é de Marilyn Monroe, declarada mártir em nosso culto a celebridades. Mas a maior percepção foi obtida no último ano da vida de Warhol, quando ficou obcecado com "A Última Ceia" de Leonardo da Vinci. Ele produziu centenas de variações sobre este tema, muitas delas com logotipos coloridos (Dove Soap, General Electric) estampada em cima de um stencil preto e branco da obra-prima. O comum sobrepõe o extraordinário. A implicação é que nossos apetites nos distraem da visão de Cristo.

A obra encontra-se atualmente no Museu de Arte Moderna (moma.org), em Nova York. Ainda mais surpreendentemente, Warhol inspira sua fé ao mesmo tempo que evita as duas armadilhas do Pop Art: a zombaria esnobe contra as coisas “burguesas” e a blasfêmia completa. Ele estava refletindo sobre a nossa sociedade, sem julgamento. Como o próprio Warhol disse: “As pessoas estão sempre me chamando de espelho, e se um espelho olhar para um espelho, o que há para ver?”. O Museu do Vaticano decidiu claramente que há algo para ver. Os céticos acusarão o Vaticano de populismo - digno do próprio Warhol - sendo que eles devem desconhecer a devoção quase surreal do artista à igreja. De qualquer forma, não pode haver dúvida de que Warhol teria ficado impressionado com a honra. Os “ícones” do artista descansarão sobre as catacumbas dos verdadeiros santos e mártires. E ele estará entre (se não necessariamente um dos) os grandes artistas da cristandade, cujo trabalho poderosamente refletiu um Deus que permaneceu apenas fora do alcance. Como se sabe, Warhol viajou para Roma em 1980 para conhecer João Paulo II. Diz-se que ele usava uma peruca comportada e a gravata mais bonita que tinha, como um gesto de respeito ao Santo Padre. Uma foto mostra Andy apertando a mão do Papa, fechando os olhos e sorrindo levemente, como se estivesse segurando as lágrimas. É a única foto de Warhol que trai sua “piedade secreta”. Em uma única vez, ele aparece como uma pessoa, não como um símbolo ou caricatura. A exposição nos Museus do Vaticano será algo como um regresso à casa. *Michael Davis é o editor norte-americano do Catholic Herald.

Artigo original: http://www.catholicherald.co.uk/issues/february-9th-2018/andy-warhols-devotion-was-almost-surreal/

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