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A CRIANÇA MORTA DE PORTINARI

*Por Thiago Bragantin

Em 1944, enquanto o mundo lá fora sofria com a Segunda Guerra Mundial, o pintor brasileiro Candido Portinari criava a série “Retirantes”, mostrando que mesmo longe da guerra, o Brasil ainda estava longe da paz.


Retratada na série de quadros que representa o êxodo da região mais seca do Brasil, a caminhada de pessoas que se lançam em busca de uma nova sorte nos faz lembrar da peregrinação do povo judeu pelo deserto, sem destino certo, sem coragem de olhar o horizonte com medo da infinitude da areia.


O quadro “Criança Morta” tem ao centro uma mãe com o seu filho morto esparramado sobre os braços. Em volta deles, o restante da família chora amargamente, com lágrimas feitas de pedras, harmonizando com a seca paisagem.


A escuridão das extremidades do quadro nos faz perder a esperança, pois nenhuma ajuda parece descer do céu. Portanto todos choram com olhos baixos, em direção à terra. Roupas velhas e corpos violentados pela fome nos fazem compadecer-nos dessa família.


A mãe segurando o corpo da inocente vida levada pelo mau deste mundo nos remete à obra Pietá, de Michelangelo, que retrata Maria segurando Jesus morto em seus braços.

Ele, o filho de Deus, que se tornou um homem, miserável e habitou este mundo caído, se ofereceu como sacrifício. O pai entregou o próprio filho e precisou fechar os olhos enquanto o amado chorava “por que me desamparaste?”


Portinari nos traz à lembrança a condição humilhada em que se encontra o homem, o quão distantes estamos da paz, e que não conseguiremos alcançar a vida plena com as próprias mãos.

Ele nos lembra que o próprio Deus, por amor a todos, se fez homem e morreu. Lembra que, para alcançar a paz Deus deu o seu filho para viver a condição humilhante de homem e morrer.


Thiago Bragantin é brasileiro, Bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo, Mestre em Divindade pelo Seminário Teológico Servo de Cristo e um dos organizadores deste site.

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