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A ARTE DO CRIADOR


*Por Tarsílio Moreira


Verbo é uma canção do poeta, compositor e cantor Gladir Cabral. Podemos descrever essa obra a princípio como uma composição poética musicada baseada no prólogo do evangelho de João, no qual o apóstolo de Jesus faz uma releitura do primeiro capítulo de Gênesis revelando o Cristo como Deus criador, centro de todas as coisas, motivo da criação. Gladir Cabral utiliza as duas traduções conhecidas nas Bíblias em Português para o termo grego "logos": verbo e palavra. O primeiro, título da canção, remete à leitura tradicional do texto em nossa língua. O segundo, tradução mais específica, é utilizado na construção poética do refrão, destacando que tudo foi criado de acordo com o desejo "da palavra".


Estão presentes outros elementos do texto de João e de Gênesis. Vemos o tema da luz em "resplandece sua luminosidade", lembrando o "Haja luz" de Gênesis e a "Luz que ilumina todo homem" de João. O Espírito é citado em "o alento do espírito soprava", o que pode nos remeter ao início de tudo em Gênesis, "o Espírito de Deus pairava...", ou ao ato criador do mesmo livro, o sopro da vida criando "alma vivente". "Dentro da palavra o alento do Espírito soprava" também pode ser uma referência ao fato de que na continuação do evangelho de João Jesus recebe dentro de si o Espírito Santo em seu batismo e a partir daí passa a contar com ele em seu ministério. O tema glória, presente na canção, remete também ao primeiro capítulo de João, "vimos a sua glória".


A canção destaca Deus não como alguém que faz coisas mecanicamente, mas um poeta ou criador poético, demonstrando que a criação é uma verdadeira poesia.

A criação é uma obra de arte, um "belo verso" que "encanta", principalmente por ser criada "com seu verdadeiro amor".

No entanto, o fato de ser uma obra de arte não significa que a criação é desordenada. Vemos uma grande regularidade métrica, rítmica e melódica no texto poético, recursos formais que indicam a ordem proposital da criação de Deus.


A canção é formada por seis estrofes de quatro versos cada; melodias semelhantes contendo repetições de estrutura e elementos léxicos: quatro estrofes com mesma melodia, estrutura semelhante e desenvolvimento do tema, e refrão formado por duas estrofes com melodia semelhante, sendo uma variação da melodia das outras quatro estrofes. Ao analisarmos as sílabas poéticas percebemos uma grande regularidade rítmica. Os versos de todas as estrofes são compostos respectivamente por seis, doze, doze e sete sílabas poéticas, com exceção da última estrofe, onde encontramos o primeiro verso com apenas cinco sílabas poéticas.


Esta variação não traz nenhum estranhamento, uma vez que no canto dentro do ritmo musical os versos que começam estrofes com "desde o princípio" são cantados apenas com cinco sílabas poéticas. Ainda sobre as questões formais, as duas primeiras estrofes são formadas com repetições e expansões do tema nos segundo e terceiro versos.


Tanto as estrofes do refrão quanto as duas estrofes finais possuem uma rima regular entre os versos. No refrão, os três primeiros versos de cada estrofe rimam entre si e entre estrofes; e os quartos versos de ambas também rimam entre si. Nas duas últimas estrofes, os segundos versos rimam com os terceiros o quarto verso da penúltima estrofe rima com o quarto verso da última.


Sobre o ritmo e instrumental da canção, podemos dizer que o compositor e arranjador optou pelo uso de cordas e por um ritmo bem marcado.

Essa mistura no imaginário popular remete a algo grandioso ou épico. Assim, a canção busca manifestar a grandiosidade e beleza da criação e Jesus Cristo como Deus, poeta, artista.

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